os cineclubistas estão chegando

por João Batista de Andrade

Não há como não ser nostálgico dos bons tempos do cineclubismo brasileiro que, quem sabe, podem estar de volta agora. Eu comecei minha história no cinema como um duplo, meio cineclubista, meio pretendente a cineasta. Junto com o Ramalho Francisco Ramalho Jr? e o Clóvis Bueno, fizemos na Poli (Escola Politécnica da USP), em 1963, o Grupo Kuatro que era de tudo um pouco: ativismo, cinema, cineclubismo. Publicávamos uma revista de cinema, o Cadernos da Poli. Fazíamos programações de cinema, com debates, em toda a Universidade.

Quantas vezes não carreguei o projetor, as latas de filme, os folhetos com textos, para projetar filmes e discutir no Grêmio da Filosofia, no Grêmio da FAU, na própria Poli, em tantos lugares. E era aquela dedicação apaixonada, filmes quase que decorados de tanto que eram vistos. O neorealismo A nouvelle vague O cinema novo O cinema japonês de Oshima, Kurosawa e tantos outros que nos influenciavam. O cinema polonês de Wajda e Kavalerowich. Os clássicos de sempre. Os ciclos documentaristas, Flaherty, Grierson, Joris Ivens, Fernando Birri, Linduarte.O filme ideal que era O Bandido Giuliano, que devo ter assistido mais de vinte vezes.

O golpe de 64 infelicitou a nação e destruiu esse trabalho. Mas as coisas voltam, se bem plantadas. E voltaram com uma força muito maior nos anos 1970, com o movimento cineclubista se reorganizando, crescendo de forma impressionante, criando federações e até um Conselho Nacional. E, claro, a cor da resistência, do não à ditadura, era misturada à paixão pelo cinema, sedimentando um movimento de renovação política e cultural dentro do cinema brasileiro.

Por decisão do movimento, foi criada a distribuidora nacional que originalmente serviria para alimentar os cineclubes de filmes. Mas que se transformou radicalmente, assumindo o cinema brasileiro e a postura de combate à opressão.

Eu tenho a honra de ter participado desse primeiro momento, decisivo, pois foi com nossos filmes do Cinema de Rua que a Dinafilmes? começou esse trabalho. Eram filmezinhos curtos, pobres, mas que falavam do Brasil real, dos problemas sociais, e que atraíam um interesse crescente das organizações da sociedade que, a partir de 1974/1975, ousavam se reorganizar, discutir o país, mesmo que, no início, tivessem que fazê-lo clandestinamente.

O cineclubismo se colocava assim na vanguarda, entendendo que o povo começava a levantar os olhos e as cabeças, que a abertura política viria, controlada ou não pela ditadura. Muitas vezes li relatórios feitos por essas centenas de entidades que proliferavam pelo país. Eram relatórios das sessões, sobre as discussões provocadas por filmes como “Migrantes”, “Pau pra toda Obra”, “Buraco da Comadre”, “Ônibus”, “Pedreira”, “Ambulantes. Pequenos filmes, trazendo as imagens reais do país, em contraposição à empulhação da imagem sem conflito, empurrada pela ditadura goela abaixo dos meios de comunicação.

Os relatórios (Clube de mães, Igreja, Sindicatos, Sociedades Amigos de Bairro, etc) mostravam como aqueles filmes ajudavam a libertar o espírito crítico e a vontade de contestar.

Depois, mais perto da anistia, com a abertura em marcha, tive também a honra de ter meu filme GREVE! Lançado, ainda durante a greve dos metalúrgicos (1979) pelo movimento cineclubista. Sem censura, com matéria em jornal, cobrando ingressos no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, com filas que desciam do primeiro andar, atravessavam o saguão do prédio e chegavam até à rua!

Claro, sei lá quantas cópias foram apreendidas e eu ganhei um processo ( que os censores trataram de destruir logo depois da abertura). Mas o filme foi um sucesso inquestionável: mostrava ao país as imagens da greve, e de Lula, proibidas na TV. E foi através do “Greve!” e do filme do Renato (Um dia Nublado) que os líderes da greve, inclusive Lula, viram as imagens do movimento que eles próprios produziam e ainda conduziam.

E depois, num processo semelhante, O HOMEM QUE VIROU SUCO que, graças a esse trabalho, nunca deixou de ser exibido e expandiu, e muito, o limitado contorno do mercado tradicional de cinema no Brasil.

Muita gente participou desse momento, desse processo: Jorge Bodansky, Sergio Toledo e Roberto Gerwitz, Renato Tapajós, Leon Hirzmann e outros, ao ponto de termos criado um verdadeiro ciclo de cinema alternativo.

Recebo agora a notícia de uma reorganização dos cineclubes.

Fico feliz, quem sabe a nostalgia possa ser substituída pela alegria de ver esse trabalho ganhar novas formas, ajudar o cinema brasileiro nessa luta de se tornar viável, bom, generoso, pluralista e popular. E de atingir o imenso público, maioria absoluta do povo brasileiro, marginalizada pelo sistema atual de distribuição cinematográfica.

Sucesso a vocês, cineclubistas.

João Batista de Andrade

nós somos o público!
conselho nacional de cineclubes brasileiros

comunicacao2010.cnc@cineclubes.org.br

jbpn/2011

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