2005. nota do cnc sobre o projeto br em movimento

NOTA OFICIAL DO CNC

Políticas Públicas de Cultura, o papel do Estado e o Movimento Cineclubista Brasileiro hoje

Introdução

Tendo em vista a recente polêmica envolvendo o Projeto BR em Movimento promovido pelo Instituto Cultura em Movimento e patrocinado pela Petrobrás, o Projeto Cultura Viva do Ministério da Cultura e a organização de cineclubes no país, o Conselho Nacional de Cineclubes, entidade representativa dos cineclubes brasileiros vem a público manifestar sua preocupação frente aos acontecimentos e externar sua posição:

Privatização da atividade cultural

Uma das características da chamada globalização é a generalização acentuada do modelo empresarial a toda e qualquer atividade humana.

Para os cineclubes, em todo o mundo, isso tem sido muito ruim, por serem entidades sem fins lucrativos, com objetivos sociais e culturais, não comerciais.

Na área cultural cinematográfica no Brasil, na virada da democratização e do neo-liberalismo, esse modelo deu origem a uma nova forma de exibir cinema nas áreas geográficas e sociais que não são lucrativas do ponto de vista comercial.

Basicamente constituídas com concepção empresarial, e financiadas pelos mecanismos de renúncia fiscal, surgiram inúmeras entidades que se dedicam a levar cinema a todo tipo de meio que não é explorado pelo cinema comercial tradicional. Isto é, onde a exibição não é rentável e precisa de subsídio.

Essa atividade tem muitos aspectos positivos, no varejo: muitos lugares não teriam acesso a uma eventual sessão de cinema se não fossem essas iniciativas.  Muitos monitores, animadores, instrutores, professores, também teriam um pequena queda na sua renda sem esse bico que acontece anualmente nas suas vidas. Em muitos casos não haveria o debate que acompanha, com maior ou menor freqüência, essas sessões.

Enfim, como outros projetos assistenciais e eventuais, esses também têm suas qualidades. Tantas qualidades, de fato, que há quem confunda isso com cineclubismo, até mesmo entre nós.

O problema não é o varejo, é o atacado: é isso se transformar na política de exibição cultural do País, com esse formato.

Porque: Os recursos são do Estado, os custos são socializados, mas a direção é privada.

Apesar de um grande blablablá sobre marketing cultural, a verdade é que os recursos para essa área “não-lucrativa”, mesmo já sendo retirados do imposto a pagar das empresas, são em sua quase totalidade oriundos de empresas estatais. Ou seja, o Estado como que paga duas vezes, e os cidadãos que financiam tudo.
Mas a orientação da atividade, a política cultural que prevalece, é ditada por essas pequenas (em número de sócios, nem sempre de faturamento) “associações”, beneficiadas pelos recursos, juntamente com os objetivos de marketing dos patrocinadores.

E vejam que não há contradição: mesmo sendo estatais, as grandes financiadoras desses projetos funcionam com uma lógica administrativa de mercado e assim “acompanham” os recursos aplicados. Pra dar um exemplo pobre: se você fizer uma sessão no Vale do Anhangabaú em São Paulo todo dia 7 de setembro, a informação que vai chegar ao gerente de marketing do seu patrocinador é que “foram atingidas 1 milhão de pessoas”… nesse ano?

São eventos que não acumulam experiência, não criam organização.

Por causa dessa base conceitual, todas as sessões de cinema promovidas por essas associações têm sido de caráter episódico, itinerante, espetacular. Talvez até por isso pareçam para os promotores fazer tanto sucesso. É como o circo que vem à cidade, ao bairro, à favela, à escola, geralmente uma vez por ano. Todo mundo quer ver uma vez.

Então elas não procuram e não deixam um saldo organizativo nas comunidades em que atuam (imaginamos que, entre tantas, possa haver uma ou outra exceção).  Portanto não criam bases, não deitam raízes, não incluem de fato essas comunidades no processo cinematográfico e cultural. Talvez por isso falem tanto em formação de platéia – que tem uma conotação estática, de objeto – quando nós cineclubes falamos em organização do público, que refere a coletivo, comunidade, participação, consciência.

No fundo, pode-se criticar essa “política cultural” por não ampliar de fato o espaço do cinema, e do cinema brasileiro em especial. No dia, ou melhor no ano em que não houver patrocínio, o “cineminha” deixa de existir. E, por outro lado, se as comunidades passassem a cuidar elas mesmas de suas necessidades, essas associações, a nosso ver, meio que perderiam a razão de ser.

Até no meio universitário, berço do cineclubismo que continuamente renovou o cinema brasileiro, a iniciativa de projetar filmes e debatê-los, passou em muitos casos a ser orientada por monitores contratados, como se os estudantes brasileiros não tivessem mais condição de se organizarem!

São muito caras, e artificialmente caras

Mas há outro fator, mais ao gosto dos administradores: o custo.  Há alguns dias pudemos avaliar um desses projetos, muito por alto, baseado em uma notícia de jornal. Cada sessão saía por cerca de R$ 26.000,00 (vinte e seis mil reais), incluindo o debate e a pipoca. A cada ano, mais de 600 mil reais são gastos – neste caso específico – para passar um filme numa cidade que não tem cinema, num total de vinte e poucas cidades. Ora, se você instalar um cineclube com uma bela salinha de uns 100 lugares com equipamento DVD, com uma pequena ajuda da prefeitura e um pouquinho de mobilização da comunidade, daria pra instalar salas permanentesnessas mesmas vinte cidades, em 4 anos ou menos, com os mesmos recursos.

Poucos são os projetos em que, como o citado acima, pode-se avaliar os custos. Mas temos certeza que esse raciocínio pode ser aplicado a praticamente qualquer um deles: o custo, calcado numa logística de evento e na remuneração assistemática dos promotorescertamente é sempre muito superior ao da implantação de estruturas permanentes.

Esse dinheiro não cria valor.

São marginais e reproduzem essa condição.

Para o cinema, isto é, a chamada classe cinematográfica, os realizadores que se impressionam com certos relatórios estatísticos, também é preciso “nuançar” esse entusiasmo: os números de pessoas atingidas por esses projetos são muito pequenos. Um dos maiores projetos, o Cinema BR, “o maior da América-latina”, exibe esses dados no seu “site”. Referem-se a todas as 27 unidades da Federação, durante 5 anos. É um trabalho interessante. Mas se comparamos esses números, por exemplo, a um único cineclube – também um dos maiores do seu tempo, o Elétrico Cineclube, que conhecemos muito bem – adquirimos outra perspectiva:

Em 5 anos o Cinema BR atingiu mais de 1 milhão de pessoas; o Elétrico, em 4 anos, acolheu 700 mil. No mesmo período, o Cinema BR promoveu 6.757 sessões; o Elétrico, em menos tempo, cerca de 15.000. Essa comparação não é das mais rigorosas: o objetivo é mostrar a fragilidade desses números em geral, quando estamos falando em cultura e não em ingressos. Tanto o Elétrico como o Cinema BR têm sua importância relativa no tempo e no espaço. E, falando em perspectiva, ambas as estatísticas influem relativamente bem pouco na dimensão das necessidades culturais de um país com quase 200 milhões de habitantes. Quanto ao número de filmes exibidos, então, não há o que ver positivo nesses projetos, sempre extremamente limitados: o Cinema BR exibiu 35 longas e 15 curtas em 5 anos!

Mantêm intocado o modelo cultural excludente

Uma das vantagens ou desvantagens adicionais (depende do ponto de vista) desse modelo é que ele tende a eternizar a condição esporádica, provisória, marginal, dessas comunidades. O mesmo método se aplica em cidades até razoavelmente grandes – muitas cidades de 100 mil ou mais habitantes não têm cinema -, que poderiam mesmo ser base para uma atividade econômica sistemática com o cinema e, portanto, plenamente integradas a um mercado um pouco mais dinâmico do que este que temos, hollywoodiano e elitista.

O Ministério da Cultura e a cultura do audiovisual.

A outra variável dessa equação é o próprio Estado.
Na atual gestão, o Ministério da Cultura vem dando mostras de que pretende manter o diálogo e um debate democrático permanente com a sociedade brasileira sobre a questão do audiovisual – que extrapola e muito a questão que estamos abordando aqui.

Mas indiscutivelmente o Ministério também se posicionou – tanto formal como concretamente – em apoio ao movimento cineclubista. A Secretaria do Audiovisual apoiou política e financeiramente todas as iniciativas de reorganização do movimento, ajudando na realização de dois congressos nacionais, da pré-jornada do ano passado e em outros encontros menores na trajetória de restabelecimento da entidade nacional dos cineclubes, o Conselho Nacional de Cineclubes. Em praticamente todas essas oportunidades diferentes elementos do ministério vieram representá-lo. A nota oficial do ministério divulgada por ocasião da última audiência da diretoria do CNC com o secretário Orlando Senna demonstra conhecimento de causa, falando sobre a retomada do movimento nos estados.

Nada mais natural, portanto, e coerente, que o ministério aproximar setores, racionalizar e otimizar a aplicação de recursos, promover a sinergia de esforços paralelos mas em alguma medida convergentes.
Assim, desde o início ficou claro que os cineclubes têm muito a ver com o Projeto Cultura Viva, o dos Pontos de Cultura, aonde o Conselho Nacional de Cineclubes tem inclusive já mapeado um circuito cineclubista. A Secretaria de Programas e Projetos Especiais, que cuida desse projeto, esteve presente na 25a. Jornada discutindo exatamente essa inter-relação.

Também é evidente que os cineclubes têm muito a oferecer e a aproveitar de um relacionamento mais próximo com projetos de exibição, como é o caso, entre tantos outros, do programa Cinema BR em Movimento. E é igualmente sensato – embora não seja, a rigor, sua atribuição – que o Ministério da Cultura, como interlocutor importante desses projetos subsidiados por empresas estatais, faça gestões para aproximar as duas iniciativas.

Ora, a divulgação de um convênio entre a Secretaria de Programas e Projetos Especiais e o Instituto Cultura em Movimento, que gere o Cinema BR, para, entre outras coisas, organizar cineclubes, parece vir exatamente na contramão do bom senso e da lisura. Mesmo havendo vários Pontos de Cultura ligados a cineclubes, e sendo cineclube um dos objetos do certame, não temos conhecimento de que algum cineclube tenha sido convidado, apenas alguns Pontos de Cultura. Uma distinção obtusa que, afinal, acabou não funcionando, pois vários cineclubistas se fizeram presentes.

Assim, mesmo entre os Pontos de Cultura convidados, parece ter havido um cuidado especial em não convidar os que, por coincidência já possuem largo histórico e experiência nas práticas cineclubistas ou que tenham seu núcleo Cineclubes organizados. Isso pareceu-nos, no mínimo, uma discriminação.

Pelos relatos que chegam, através da lista CNC diálogo,os representantes do ministério apresentaram como entidade conveniada o Centro Cineclubista de São Paulo. Em outras palavras: o Centro Cineclubista de São Paulo passaria a orientar a “política cineclubista” nos Pontos de Cultura.

Resumindo bastante, o Centro Cineclubista de São Paulo reúne pessoas e uns poucos cineclubes realmente em atividade, todos de São Paulo, totalizando um pequeno grupo que, não sendo capaz de formar uma chapa e participar das eleições na Jornada, saiu teatralmente da plenária, denunciando a “falta de representatividade” do nosso congresso. Vale lembrar que esse Centro tem expressão apenas numa pequena área de São Paulo enquanto que apenas na diretoria executiva do CNC já estão representados 9 estados brasileiros, incluindo São Paulo. A saber: Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Distrito Federal, Espírito Santo e Alagoas.

Durante a Jornada, o Centro Cineclubista promoveu incontáveis reuniões com lideranças de outros estados, numa frenética tentativa de “entendimento” em troca de cargos. De fato é por não terem obtido os cargos que resolveram não participar. E, reciprocamente, é justamente por só quererem cargos que o resto do Brasil não quis compor uma chapa com eles – sem entretanto excluí-los do movimento, que tem várias outras formas de participação. E o que está acontecendo agora é a continuidade das “negociações” e conchavos propostos por este grupo na oportunidade, além de sugerir a concretização das ameaças públicas promovidas pelos representantes do Centro Cineclubista de São Paulo.

Essas ameaças nunca foram levadas a sério, pois significariam simplesmente o aparelhamento, a manipulação com fins nebulosos do próprio Ministério (de setores dele, pelo menos) e dos recursos que pode distribuir. Um escândalo desses seria extremamente nocivo para a política cultural do governo, que já tem tantos inimigos a falar em dirigismo e outros termos menos dignos. Na mão de certos setores, tais arroubos irresponsáveis virariam o mais baixo sensacionalismo.

Estranhamente, ao contrário de outras entidades contempladas no Programa Cultura Viva, o referido Centro Cineclubista nem tem Ponto de Cultura.

Por outro lado em nota oficial intitulada “MinC, Secom e Conselho Nacional de Cineclubes trabalham pauta conjunta” (cf. “site” do MINC) – descreve assim: “Os cineclubes estão se organizando em federações, que por sua vez se unem em um Conselho Nacional. Doze estados e mais o Distrito Federal fazem parte dessa organização, que já conta com quase 200 cineclubes.” A mesma nota chega até a dizer que “o movimento cineclubista no país, (foi) reativado em 2003, pela Secretaria do Audiovisual, que viu a necessidade de ampliação e aprofundamento do acesso à essa cultura, e cujos primeiros resultados já podem ser vistos a partir no número de cineclubes inscritos”, retratando o apoio inequívoco que a área do Ministério realmente responsável pela política de audiovisual do governo tem dado ao movimento e a sua entidade nacional.

O cineclubismo brasileiro, justamente, reuniu-se em congresso nacional, criou uma entidade nacional apartidária e elegeu uma direção para representá-lo junto ao governo e a outras instituições, com o fim de encaminhar entendimentos de alcance mais geral que atendam às necessidades e reivindicações dos cineclubes em todo o território nacional.

Assim entendemos que procurar uma entidade paralela e artificialmente estimulá-la e financiá-la com recursos públicos é uma grave irregularidade.

Pretender entregar a “orientação das exibições de cinema” de um programa público de formação de núcleos comunitários a uma entidade privada sem qualquer definição de parâmetros, sem qualquer tipo de edital ou concorrência pública, constitui equivoco administrativo e revela estreiteza cultural.

Os cineclubes do Brasil esperam que o ministério saiba desfazer essa incômoda impressão de desinformação, inabilidade e intervencionismo, em especial explicando clara e publicamente os objetivos e o alcance do acerto celebrado com o Instituto Cultura em Movimento, assim como divulgando o montante e aplicação dos recursos nele investidos.

Os cineclubes aguardam que o MINC prontamente tome as medidas necessárias para assegurar a mais ampla participação dos cineclubes e de todas as entidades e grupos comunitários nos diferentes projetos patrocinados de alguma forma pelo governo, inclusive reconhecendo eventuais equívocos e revogando disposições, contratações e outras medidas que possam comprometer a lisura, a democracia e o aproveitamento cultural dos referidos projetos.

Os cineclubes reafirmam sua confiança na possibilidade de um entendimento proveitoso entre as partes envolvidas – o Instituto Cultura em Movimento, o Ministério da Cultura e o Conselho Nacional de Cineclubes – no sentido de um maior aproveitamento das experiências de todos e de uma colaboração enriquecedora para as comunidades-alvo dessas iniciativas culturais cinematográficas de caráter público.

Brasília, 14 de abril de 2005.

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