Cinecura ou o oportunismo manifesto

Amigos(as) cineclubistas,

Estão acontecendo coisas bem graves.
Abaixo seguem algumas informações e uma tentativa de análise sobre o que está ocorrendo.
Em seguida esse texto estará disponível no sítio
http://www.utopia.com.br/cineclube

Obrigado,
Felipe Macedo

Cinecura ou o oportunismo manifesto

A expressão movimento cineclubista designa o conjunto dos cineclubes, de variadas origens, diferentes ambientes e comunidades, múltiplos e diversos projetos culturais. Uma grande diversidade de formatos e de práticas, mas com algumas características precisas que os aproximam entre si, ao mesmo tempo em que os diferenciam de outras instituições ou atividades cinematográficas.

Movimento cineclubista organizado define os espaços, regionais, nacionais ou internacionais, que essas entidades, os cineclubes, constroem para atender e defender interesses comuns, materiais – acesso a filmes, espaços, equipamentos, formação, etc – ou de outra ordem – luta contra a censura e a discriminação, defesa do cinema nacional, entre muitos outros – desde que decididos por uma maioria significativa em processos democráticos.

A democracia não é apenas indispensável ao funcionamento de um movimento cineclubista organizado, ela é um traço essencial da própria atividade cineclubista em toda a sua história e em todo o mundo. Os cineclubes nasceram para defender a democracia em todos os planos do cinema. E não para serem usados como instrumentos políticos de terceiros.

Introdução

A segunda coisa mais importante para um cineclube – a primeira é definir seus objetivos, seu projeto cultural – é encontrar uma forma de financiar suas atividades. Na história do movimento cineclubista já houve várias maneiras de abordar essa questão e ela continua sendo um problema de difícil resolução.

Para a maioria, creio, o verdadeiro cineclube é o que consegue atuar, se manter, preservando seu projeto, sua independência, a ligação orgânica com seu público, sem ceder a interesses de outra natureza, econômicos ou ideológicos. Outros, ao longo da história do movimento, não hesitaram em entregar, em maior ou menor grau, a orientação dos seus cineclubes a terceiros – ou já criá-los sob um modelo de dependência a uma outra instituição. Estes constituem uma longa linhagem histórica, que começou com os cineclubes ligados à Igreja, passou pelas entidades mantidas por empresas ou associações patronais de diversos tipos e acabou nos que foram financiados por bancos e, no processo – até com honestidade, devemos admitir – abandonaram a própria denominação de cineclube.

A manifestação mais recente dessa postura de dependência – tanto política e ideológica quanto econômica –  que este artigo pretende analisar, está exposta num certo “Manifesto por um Novo Cineclubismo” que circula “secretamente” há mais de um mês, na lenta e difícil tentativa de colher assinaturas e provocar um “fato político de grande repercussão” ou qualquer efeito do tipo. Num furo de reportagem, trazemos ao conhecimento do conjunto do movimento cineclubista ao mesmo tempo o “manifesto” e a avaliação dessa proposta que, sob uma roupagem pretensamente democrática e inovadora, esconde uma visão reacionária, autoritária, e um indisfarçável oportunismo que cada vez mais se assemelha a um golpe mesmo, nas instituições que o movimento ainda está formando.

Mais grave do que a simples demagogia, que acho que salta aos olhos do leitor atento, essa mesma maneira manipuladora de “fazer política” já contribuiu muito para a divisão, o enfraquecimento e posterior falecimento do movimento cineclubista brasileiro (ver Quem Matou o Cineclubismo Brasileiro).

A cópia a que tive acesso não tinha assinatura, mas acredito que o estilo trôpego-erudito do redator principal é indisfarçável, as teses são as defendidas pelo autodenominado Movimento Popular Cineclubista e, aparentemente, já estão sendo postas em prática pelo Centro Cineclubista de São Paulo, todos operando como meros apêndices de um projeto fortemente partidário.

Para facilitar a leitura e tentar manter o interesse do leitor, dividi este artigo em seções, que podem ser lidas em qualquer ordem: o manifesto propriamente dito, um retrospecto da atuação do grupo que o subscreve”,  a crítica da mistificação que o manifesto apresenta como história do movimento, e a avaliação do conteúdo dessa proposta pelo menos tão antiga como o stalinismo, mas que quer se apresentar como moderna.

Por um novo cineclubismo

Gente é o que importa ou, noutras palavras,
O maior capital do homem é o próprio homem
(Marx)

Parte desta nova fase de aprofundamento da democracia brasileira, iniciada com a eleição de Lula e a retomada do cinema brasileiro, a rearticulação do movimento cineclubista não se faz sem contradições, seja pela necessidade de que o passado do movimento seja criticado vigorosamente em tudo que foi de limitado e insuficiente, seja pela manifestação hoje de novas experiências que não podem nem devem ser mutiladas para que sejam encaixadas a fórceps a velhos e ultrapassados formatos e métodos, que se ufanavam pelas decisões de petit comité (que, aliás, no francês significa, literalmente, comissão secreta – para quem se interessar, ver o Dic. Francês/Port. da Bertrand), que tantos estragos fez ao movimento e que reflete uma prática cupulista, useira e vezeira de atropelar decisões coletivas, sempre em favor de articulações de curto alcance, verticalizadas e de mão única: de cima para baixo.

Essa rearticulação geral do movimento de forma mais combativa, que inclui as novas mídias e fortemente a produção, não se fará sem o embate entre novas experiências que precisam florescer e o que resta de ultrapassado nos corações e mentes. É absolutamente inevitável que práticas de petit comité queiram não apenas sobreviver como também condicionar o conjunto do movimento que estamos lutando para pôr de pé, como também é inevitável que as novas experiências e seus agentes se movam e lutem por fazer saltar, de baixo para cima, tudo que as impede de vir á luz.

O cineclubismo anterior a esta fase que estamos vivendo faliu, inviabilizou-se e amofinou-se na inanição por razões objetivas e por suas próprias deficiências. As instituições desse cineclubismo conservador morreram porque não correspondiam a necessidades urgentes do movimento, que prosseguiu desorganizado e viveu uma década de iniciativas dispersas, espontâneas e desarticuladas.

Retomar o movimento agora e submetê-lo às mesmas formas, estruturas e instituições que caducaram é condená-lo à artificialidade, ao engessamento, é condenar o horizonte largo ao horizonte estreito. Com o que não se pode concordar, nem se pode permitir.Há uma larga diversidade de experiências cineclubistas pelo Brasil. Os agentes que as promovem, no mais das vezes, nem sequer intuem a natureza e a profundidade do que estão a realizar – e tudo que fazem é parte dessa luta pela descoisificação do público, do realizador, da obra cinematográfica enfim. É preciso e urgente que reunamos toda essa gama de experiências variadas inusitadas, vivas, que ora são coletivas, ora são individuais, mas todas significativas e em perspectiva potencializadoras do nosso movimento. Essas experiências devem ser reconhecidas e incorporadas pelas instituições que organizarmos: tela, seja a que for, de lençol ou cristal líquido; ação, a que for efetiva, da produção à crítica, da exibição à educação.

Numa expressão: o velho cineclubismo parou no reconhecimento da entidade cineclubista, e não foi além disso. Burocratizou-se e estabeleceu um limite estreito, curto e raso para o movimento, que a rigor não era, nessa perspectiva, cineclubista, mas de entidades cineclubistas, de cineclubes, o que circunscreveu o cineclubismo a um movimento exclusivamente de entidades – e, mesmo assim, nem de todo tipo.
Sem dúvidas que é necessária a organização de cineclubes, e que haja fóruns para cineclubes decidirem seus rumos. Porém, cineclubes não nascem em árvores: são obra de ação humana.

Sem cineclubista não há cineclube.

É urgente que construamos entidades de base do movimento, ou seja, cineclubes, com a maior liberdade de organização possível e imaginável. E igualmente é urgente organizar formas de representação cineclubista – não apenas de cineclubes –, pois são eles os que devem dizer o que o movimento deve ou não ser, e não o contrário. Que natureza, que objetivos, que configuração terão nossas entidades são questões de responsabilidade do cineclubista, dos que estão e dos que virão agregar-se a esse esforço cidadão de constituir instituições que lutem pelo
aprofundamento de nossa democracia, sempre tão periclitante.

Nos fóruns antigos do movimento, o cineclubista não votava, votava apenas o representante do cineclube. É o que desejamos para o nosso movimento hoje? Constituiremos uma comissão de notáveis a decidir o que é ou não o movimento, ou todos os cineclubistas, com pleno uso do voto o decidirão? Estamos abertos às novas experiências, reconhecemos sua importância vital, validamos suas práticas e lhes franqueamos totalmente o movimento, ou pomos na porta do movimento uma catraca, protegida por um segurança encarquilhado a cobrar carteirinha de associado ao petit comité? Queremos mais gente se tornando cineclubista já, participando de jornadas centradas nas questões essenciais do movimento, ou desejamos, o que já vem ocorrendo, administrar a crescente exclusão de pessoas de nossos fóruns, voltados às lógicas que perderam a validade há mais de 14 anos? Queremos um Estado que fomente ou que tutele?

Portas abertas aos novos cineclubistas: quer virar cineclubista? Pode. É cineclubista? Vota.

Por entidades de cineclubistas, estaduais e nacional, e não apenas de cineclubes.

Por jornadas de cineclubistas, estaduais e nacionais, e não apenas de cineclubes.

Por um forte movimento de formação de novos contingentes de cineclubistas, e não apenas de cineclubes.

Por uma política para o movimento que tenha como centro o cineclubismo, plural, amplo, democrático, diversificado, com toda sua riqueza de experiências, natureza e formato, que reconheça, respeite e incorpore os contrários.

Por um debate sobre o que são o cineclubismo, o  cineclubista, e os cineclubes, debate franco, aberto, sem esquematismos ou apegos a fórmulas excludentes, e que resulte em novas instituições representativas do movimento.

Somente gente pode reativar nosso movimento com a força de que ele necessita para desempenhar o papel que pode e deve.

Gente, gente, gente. Gente votando.

E quanto mais, melhor. Não temos nada a perder, temos um mundo a ganhar.

Assinam:

Rápido retrospecto ou Golpismo, doença infantil do cineclubismo

Logo no começo do funcionamento da lista de discussão da Pré-Jornada, no início deste ano, um elemento do Centro Cineclubista de São Paulo (daqui em diante CCSP, para economizar) referiu-se rapidamente à necessidade de se “regulamentar a profissão de cineclubista”, sendo logo aplaudido por um outro membro do seu grupo.  Quando questionados na própria lista “de discussão”, contudo, a questão foi abafada e o assunto desapareceu.

Depois foram os estatutos de um tal Cineclube Brasil, que foram parar na mesma lista claramente por descuido do responsável. Várias teses do manifesto acima encontravam ali sua expressão jurídica, principalmente a igualdade de votos entre cineclubistas e cineclubes –  e “qualquer outra pessoa jurídica, nacional ou estrangeira” – além do domínio exclusivo de certas decisões pelos “sócios fundadores”, que controlam toda a entidade, incluindo cineclubes, cineclubistas e o que mais vierem a arranjar. Não, este último quesito não consta do manifesto, claro. Rapidinho vieram várias explicações de que não era nada importante, “deixa pra lá” e coisa e tal.

Paralelamente rolava na lista um verdadeiro cabo-de-guerra, com gente de várias partes do País pedindo para conhecer os Estatutos do Conselho Nacional de Cineclubes (a entidade nacional dos cineclubes brasileiros que funcionou entre 1962 e 1969, e depois entre 1973 e 1988), arquivados em São Paulo, e que acabaram sendo postos na lista pelo Cecibra, de Brasília. Imediatamente depois os estatutos foram “encontrados” em São Paulo e também colocados na lista. Os dois textos eram diferentes, é importante lembrar.

Na Pré-Jornada, em Rio Claro, um “plano cineclubista” (não sei se o nome era exatamente este porque também esse documento “sumiu”) chegou a começar a ser distribuído pelo CCSP, claramente para substituir de última hora o Plano Nacional de Cineclubismo que a Comissão Nacional de Rearticulação do Movimento Cineclubista vinha discutindo, inclusive com os dois membros do CCSP que representam o Estado de São Paulo na dita Comissão, e que nada haviam dito até então.

No momento em que escrevi este texto estávamos aguardando a Comissão Nacional deliberar sobre a lista de discussão da próxima Jornada, que passou a ostentar um “lema” no mínimo discutível (e que eu discuto mesmo, em outro texto: Alfabeto e Consciência), afastando um bom número de cineclubes e tornando a lista uma espécie de área privativa do autodenominado Movimento Popular Cineclubista (MPC daqui para a frente), “coordenado” pelo presidente do CCSP que, coincidentemente, parece formado por – e exclusivamente de – cineclubes e pessoas que também são filiados ao CCSP.

Para maior coincidência ainda, esses filiados às duas denominações só apareceram agora em qualquer das listas de discussão cineclubista – mas exibindo-se com muito entusiasmo – justamente às vésperas do encerramento do prazo para inscrever-se na Jornada e demonstrar sua existência para poder votar na mesma. Acho que nesta altura todos os leitores já deduziram, pelo mesmo princípio geral de coincidência, que, apesar de estranhamente mudos até dias atrás, quase todos esses cineclubes procuram atestar mais de seis meses de existência, como é exigido pelas decisões que regem o exercício de voto na Jornada.

Depois da lista, que devia ser o canal oficial da Jornada, ser esvaziada de outras vozes, uma nova torrente de inscrições de cineclubes, agora de várias partes do País – com especial destaque para o Ceará – e relatando diversos estágios de organização, se precipita sobre aquele espaço que devia ser amplo e coletivo. Seria uma notícia alvissareira, não fosse o fato de que, estranhamente, a quase totalidade desses novos inscritos – muitos declarando que ainda vão começar as atividades – já faz parte do chamado Movimento Popular Cineclubista, já nasce engajado numa tendência. De fato, boa parte delega ao “Movimento” fazer a inscrição, inclusive um que mandou sua mensagem com espaços em branco, que o distraído – ou apressado – “inscrevente” do tal “movimento” nem se incomodou de preencher. Um “movimento” que ainda não divulgou nenhum princípio ou proposta, exceto talvez sua intenção de alfabetizar cinematograficamente o povo ignorante, mas que já congrega e mobiliza com extrema organização e “timing” preciso cineclubes distantes e até os que ainda estão no estágio de projeto.  É verdade que alguns, talvez, sejam exceções a esse quadro: cineclubes independentes que dirigem-se à lista da 25a. Jornada e, de boa-fé e sem serem consultados, viram “companheiros” ou correspondentes do “administrador espiritual da lista” e coordenador do MCP.

De fato, como se pode ver no “site” do cineclube em formação em Mococa (www. caixaderessonancia.com.br), o cabotino professor doutor se apregoa – em correspondência “privada”, onde trata de temas como inscrição e voto na Jornada – novos títulos: como o de “Presidente da Rearticulação do Movimento Cineclubista”. Ou seja, já usurpou  a coordenação da lista à Comissão eleita e até mesmo a seus discípulos, antes apontados como moderadores desse canal de comunicação coletivo.

Culmina esse processo de articulações sigilosas o próprio “manifesto” que vamos discutir adiante, e que tem circulado secretamente, colhendo assinaturas para um grand finale que eu só posso imaginar.

Irônico ou irritante, conforme o ponto de vista, é que durante todo esse processo – cerca de seis meses! – o principal porta-voz do grupo escrevia sem parar, e com uma solicitude enjoativa, sobre a necessidade de “promovermos” o debate. Promovermos nós, porque toda essa armação transcorria em segredo, excluindo sistematicamente, por exemplo, os cineclubes de São Paulo que não comungam com as idéias dessa entidade, o CCSP, que começou como cineclube e virou entidade representativa nacional bem antes da Jornada acontecer. A entidade sediante (sic) da Jornada, cujo principal objetivo é discutir e deliberar sobre uma forma de organização para o movimento cineclubista brasileiro, já é uma entidade representativa. Considerando os antecedentes recentes – e mesmo os mais distantes, como veremos – isso não é lá garantia de muita isenção, lisura, democracia.

E agora o camarada cismou em ficar repetindo a expressão petit comité, que ele define erroneamente como “comissão secreta”, no “manifesto” e em toda uma série de mensagens que tem mandado para a referida lista – quase sempre quando se refere a organizações do movimento, do passado ou do presente, regidas por eleições. É o que aqui em Montreal chamamos de trop de culot – muita cara de pau!

Nada disso, a rigor, constitui grande novidade.  Outros grupos ou movimentos políticos utilizaram discursos e expedientes muito semelhantes em diversos outros momentos da história do movimento cineclubista brasileiro. Mas isso não diminui a importância do fato; esse tipo de manobra aparenta ser meio bisonho, mas ainda pode ser eficaz: teve uma participação importante na crise que o movimento experimentou nos anos 80 e na sua “hibernação” por mais de dez anos (Quem matou o cineclubismo brasileiro).

História da carochinha / Mistificação e má-fé

Lendo o “Manifesto por um novo cineclubismo” ficamos sabendo que, em sua fase anterior, o movimento cineclubista nacional esteve preso a uma estrutura – organizativa, estatutária – inadequada, restritiva, “limitada e insuficiente”, com “velhos e ultrapassados formatos e métodos”. Mais que isso, o movimento era conduzido de maneira “cupulista, useira e vezeira de (sic) atropelar decisões coletivas”…”sempre em favor de articulações de mão única: de cima para baixo”. Era um “cineclubismo conservador”.

Diante dessa realidade aterradora, claro, só se pode concluir que os cineclubes de hoje precisam de novas formas de organização. Que até por serem “diferentes” deverão ser melhores.  E vai de barato que quem redige o manifesto é legítimo representante de tudo que há de mais novo no movimento. É uma lógica espantosa.

Se o leitor fechar os olhos com força e tomar apenas a introdução desse “manifesto” como fonte da história do movimento cineclubista brasileiro, pode ser que embarque nessa mistificação.

Mas se consultar outras fontes, se procurar saber mais sobre nossa história, para além dessas fáceis – e mentirosas – afirmações, vai descobrir um movimento vibrante, radicalmente democrático, de uma pluralidade que surpreendia e superava outros movimentos sociais, da época e mesmo muitos de hoje em dia. De fato, no período marcado pela luta contra, e derrota da Ditadura Militar, a democracia era, como em talvez nenhuma outra época, uma preocupação essencial, constante, vital; uma característica indispensável que distinguia o movimento. Ser democrático era a maneira mais conseqüente de combater o autoritarismo. E ainda é.
Cineclubismo conservador?

Um movimento cujo esqueleto organizativo – o Conselho Nacional de Cineclubes (CNC), as federações estaduais e/ou regionais, e sua distribuidora de filmes, a Dinafilme – era gerido de forma exaustivamente democrática (o ideal é comprovar isso por si mesmo, sem aceitar afirmações de terceiros: os estatutos do CNC, das federações e o Regimento Interno da Dinafilme – um anexo dos estatutos do CNC – podem ser consultados em diferentes lugares).

O CNC reunia sua assembléia nacional uma vez por ano, com todos os cineclubes do País. Ali se deliberava sobre tudo, em particular avaliando o Relatório de Atividades do CNC sobre o ano passado e definindo o Plano de Atividades do CNC para o ano seguinte. Muito freqüentemente, nessas assembléias nacionais – as tradicionais Jornadas Nacionais de Cineclubes – discutia-se e reformava-se os estatutos do CNC (acho que se tirássemos a média, daria uma reforma de estatutos a cada três, quatro anos), continuamente aperfeiçoados no sentido democrático desde a sua criação, em 1962. A cada dois anos a jornada de cineclubes elegia uma nova Diretoria do CNC.

Além disso, o Conselho Consultivo e Fiscal do CNC– depois renomeado Conselho de Representantes – era constituído de representantes eleitos nas federações “ou entidades equivalentes”. Esse Conselho se reunia no mínimo quatro vezes por ano e sua função era fiscalizar e contribuir com a diretoria do CNC da maneira mais ampla (veja os estatutos do CNC). Tanto a plenária nacional como o Conselho Fiscal, podiam até mesmo destituir a diretoria do CNC no todo ou em parte, observados certos procedimentos.

A Dinafilme, então, foi a empresa mais maluca de todos os tempos: ela era administrada por um Conselho Administrativo (CADINA) composto por representantes das federações. Comissões regionais geriam a distribuidora nas bases territoriais das federações, onde mantinha-se um acervo. O famoso Boletim CADINA informava periodicamente os cineclubes sobre a gestão da sua Distribuidora (juridicamente ela era propriedade de todo o movimento), promovia a discussão de propostas e planos. Finalmente, também essa administração era submetida a aprovação nas jornadas. Esta é uma breve e insuficiente descrição dos instrumentos jurídico-organizacionais que constituíam o grande, combativo e democrático petit comité dos cineclubes brasileiros.

Mas tem mais: o CNC, originariamente criado como um conselho mesmo, entre as federações, um órgão mais de consulta, em que apenas as federações votavam – isso antes do AI-5 e do golpe de 1967 ( alguns ignorantes confundem esse conselho de federações com uma entidade menos democrática, por absoluto desconhecimento da história do movimento, talvez do País) – transformou-se, no período seguinte do movimento, numa estrutura mais confederativa, com uma ligação mais intensa com os cineclubes, pela evolução histórica do movimento – como a criação da Dinafilme – e até por necessidade de melhor defesa diante de assaltos bem concretos aos cineclubes – invasões, depredações, prisões – por parte do governo militar e de seus asseclas. Por isso o voto passou a ser direto, exercido pelos cineclubes e não mais pelas federações. Destas, exigia-se que fossem constituídas estatutariamente, com regras precisas e formais para participarem como elemento fundamental – mas sem voto – da articulação da entidade nacional com suas bases.

Cabia às federações, e não ao CNC, filiar os cineclubes ao movimento como um todo. Essa articulação era importante: a estrutura ficava mais leve e o que geralmente se exigia do cineclube era justamente que comprovasse alguma forma de gestão democrática das suas atividades: não precisava nem ser estatutos, podia ser qualquer coisa de conhecimento público na comunidade em que o cineclube atuava, desde que assegurasse justamente um relacionamento aberto e democrático dentro da entidade e desta com o seu meio. Houve cineclubes geridos por coletivos, conselhos, assembléias, as formas mais diversas, até anedóticas quem sabe, mas democráticas.  Como atualmente, talvez? Enfim: regras precisas e democráticas nas entidades representativas mais gerais; leveza, criatividade e maior informalidade nos cineclubes.

No movimento nacional estavam representadas todas as tendências políticas, legais e/ou clandestinas, do País. Todos os movimentos sociais da época – muitos dos quais estavam nascendo. Eram estudantes de todos os níveis, associações de moradores de bairros, sindicatos e associações profissionais; o movimento negro, de mulheres, de homossexuais. Até a descriminalização da maconha foi moção aprovada por ampla maioria dessa assembléia tão heterogênea, em mais de uma jornada.

Também eram cineclubes de todas as regiões, que chegaram a constituir sete federações regionais e/ou estaduais. Graças à nossa Distribuidora, cineclubes puderam se implantar e sobreviver em qualquer ponto do Brasil, quando as distribuidoras comerciais e até a Embrafilme recusavam-se a mandar filmes para certas áreas do País. A Dinafilme também era instrumento de diálogo com literalmente milhares de pontos de exibição, fornecendo filmes para atividades de outros movimentos sociais.

Em plena Ditadura tivemos forças para aprovar medidas legais, no plano federal e nos Estados, em defesa dos cineclubes. Derrotamos a Censura, forçando a devolução de filmes apreendidos na invasão da sede do CNC e da Dinafilme, numa mobilização nacional (1979) que congregou apoios que iam desde o do atual presidente Lula até os maiores líderes da Igreja, da Imprensa, da Ciência, etc.  Esse ponto alto da nossa presença na sociedade também foi um exemplo maior de democracia interna do movimento cineclubista, juntando as forças de federações com orientações muito diversas, mas que se uniam na luta e no exercício democrático do movimento. Todas as tendências – e elas eram bem diferenciadas – e a totalidade dos cineclubes sempre prestigiaram e participaram das “formas e métodos” que o movimento criou coletivamente.

Como hoje, as ABDs eram nossas irmãs, desde a “outra jornada de rearticulação”, a de Curitiba, em 1973. Mas o movimento participava de todas as mobilizações do cinema brasileiro e tinha assento em todos as suas entidades mais gerais.  Por força exclusivamente de sua organização e representatividade, era ouvido pela sociedade e respeitado até pelos instrumentos repressivos do governo de então.

Se o leitar fechar os olhos, mas com muita força mesmo, de forma a obliterar o seu raciocínio, transformando-se em dócil massa de manobra, aí poderá aceitar chamar esse movimento que nos antecede, e principalmente entre 1973 e 1984, de conservador, petit comité.

Mas por que 1984 e não 1988, data da última jornada?

O velho e o novo ou Lobo em pele de cordeiro

O mais escandaloso, contudo, nesse encadeamento de “fatos” e “raciocínios” meio aristotélico – tudo que é novo é bom; nós somos novos; então somos bons – é a manipulação descarada da desinformação, um velhíssimo método sistematizado por um antigo ministro da Informação e Propaganda da Alemanha: Joseph Goebbels. Ele que vulgarizou o princípio de que uma mentira repetida várias vezes vira verdade.

Ora, os criadores do CCSP, MPC, e da idéia retumbante e inovadora de dar voto a militantes são os mesmos responsáveis pela agonia e desarticulação do movimento, que começou em 1984. Não é que o fato de alguns deles estarem aí há mais de 20 anos vá definir sobre a velhice ou novidade de suas idéias. É que essas idéias – a bem dizer, uma idéia: a do cineclubista com voto e salário – são conseqüência justamente da trajetória, longa e infeliz, desse grupo. E os métodos são rigorosamente os mesmos, agora fortalecidos pela aliança partidária, mas que utiliza exatamente os expedientes que já mataram, por exemplo, a Federação Nordeste e a Mineira.

Em 1984, o corifeu moral desse grupo, Diogo Gomes dos Santos, foi eleito presidente do CNC por um voto de vantagem, à cabeça de um movimento que se autodenominava os “feios, sujos e malvados” (provavelmente por uma má interpretação do famoso filme do Ettore Scola), em oposição ao restante do movimento, considerado burguês. Mas note-se: “burguês” não era uma crítica política, era apenas uma postura sectária contra pessoas diferentes, roupas diferentes – se o leitor acompanha a lista da Jornada, verá que mesmo agora afloram considerações sobre gente que “tem tempo livre para ficar no computador”, e outros juízos, mais rancorosos que políticos, entre esses neo-feios, sujos e malvados.

Uma característica política  “vencedora” dos Feios, sujos e malvados era que não debatiam em público suas idéias – nem rebatiam as propostas dos adversários – eles se “prepararam” e ganharam por um voto, sem discussão. Como agora, em que o “manifesto” só viria à luz depois de ter conseguido a adesão desses cineclubes que estão surgindo tão subitamente.

Mas 1984 era um momento de inflexão histórica do cineclubismo, com a redemocratização do País, o começo da rediscussão dos rumos do cinema brasileiro e da Embrafilme, a própria crise do 16 mm e o surgimento dos cineclubes em 35mm.  O sectarismo e estreiteza dos Feios, sujos e malvados afastou de imediato os cineclubes 35mm – justamente os cineclubes mais sólidos e experientes que estavam criando salas nessa bitola dentro de um projeto de apoiar a grande maioria, em 16mm, e tentar ampliar a ação da Dinafilme, criando bases econômicas mais fortes e independentes para o movimento. Mas aquele “novo” CNC também deixou estiolar-se o diálogo com o resto do Cinema Brasileiro, perdeu os canais de negociação com o Estado, foi reduzindo um forte movimento cultural nacional a um grupo estreito e sem representatividade. Dividiu, enfraqueceu e isolou o movimento cineclubista brasileiro levando-o, pouco a pouco, à desarticulação total.

Essa gestão 1984/86 do CNC conseguiu também eleger seus sucessores, numa aliança trágico-surreal que colocou na direção do movimento cineclubista um grupo de pseudo-terroristas fascistas, conhecidos como “kadafianos”.  Estes andavam armados, nas duas ou três jornadas de que participaram, distribuindo o “livrinho verde” dos pensamentos do General Muammar al-Kadhafi, pregando a inferioridade da mulher – porque ela “adoece” uma vez por mês – e a perseguição aos cineclubistas de origem judia. Aí já não era mais cineclubismo, era um circo de terror, uma chanchada líbia.  Apesar de diferentes tentativas, o movimento nunca mais se recuperou.

Ora, todos os associados que até hoje se manifestaram em nome do CCSP; toda a “diretoria-executiva” da revista CineclubeBrasil (com exceção da companheira do editor), os que se manifestaram em nome do Movimento Popular – “coordenado” pelo presidente da revista e do CCSP – ou faziam parte dos chamados Feios, sujos e malvados, desde a sua aparição, ou se juntaram ao grupo, já sem essa denominação, quando este “herdou” o Cineclube Bixiga, abandonado pelos seus fundadores, no final dos anos 80 – em que pese o caráter “burguês” que eles tanto combateram, até que um cineclube 35 lhes caiu na mão. Diga-se, de passagem, que em poucos meses, marcado pela mesma aura de sectarismo e até atos de hostilidade com jornalistas, aquele memorável cineclube morreu (transformou-se numa sala comercial – coisa inédita – o que demonstra que ainda era viável).

São esses cineclubistas com uma experiência, convivência – e vícios – de cerca de 20 anos que se apresentam como os grandes paladinos dos novos cineclubes, os arautos das novas experiências, os filhos das novas mídias – que mal sabem reconhecer ou manipular.

Há, de fato, um “novo” componente nesse grupo: ele aliou-se, ou dissolveu-se, numa aliança de caráter partidário. Aqui não é o lugar para um exame mais profundo da questão da instrumentalização da atividade cineclubista – faço isso em outro texto, Quem matou o cineclubismo brasileiro.

Basta dizer que não é surpresa que um partido resolva usar a “fachada” do cineclube e os fabulosos recursos do cinema para aliciar pessoas e penetrar em comunidades. Isso aconteceu várias vezes durante a história do movimento cineclubista, sem resultados duradouros. A mais elaborada política de utilização dos cineclubes, a da Igreja nos anos 50,  desmoronou assim que a instituição passou por reformas: a criação da CNBB no início dos anos 60 e a mudança de orientação e de poder dentro da Igreja levaram à morte de centenas, talvez, de cineclubes, que se alicerçavam num apoio meramente instrumentalizador.

Existe, porém, uma forma mais deletéria de instrumentalização: a que visa apenas criar número para efeitos eleitorais, dentro da estrutura do movimento. O PCBR fez isso com a Federação Nordeste em 1978, para disputar as eleições do CNC: usou-a e, derrotado, deixou a Federação morrer imediatamente após a Jornada eleitoral daquela ano; matou-a em dois meses. O grupo Centelha, em Minas, fez a mesma coisa, mas com um pouco mais de trabalho cineclubista: a Federação Mineira definhou por três anos, restrita praticamente à Capital (no Estado brasileiro que tem mais municípios) e aos cineclubes universitários controlados pela tendência.

Partidos ou estruturas partidárias, com uma visão superficial e oportunista do trabalho cultural que o cineclube representa, são capazes de causar grandes estragos na estrutura coletiva do movimento. Facções dentro de grandes partidos também podem agir com grande autonomia nesse sentido. Lamentavelmente os partidos brasileiros, sem exceção, dão pouca atenção à área cultural, deixando eventualmente para grupos mais sectários e/ou militantes de menor formação política uma ampla margem de manobra nesse terreno. Infelizmente, até os próprios mecanismos partidários, de hierarquia, disciplina, solidariedade, podem levar de roldão outros militantes, menos informados, fazendo crescer os danos mesmo sem que a direção partidária perceba.

Dispondo de canais de comunicação próprios e de militantes disciplinados, prontos a cumprir ordens e  tarefas, é muito fácil “criar” rapidamente diversos cineclubes onde quer que o partido tenha influência suficiente: sindicatos, associações, no movimento estudantil, até em cursos que usam filmes como instrumento didático… Cineclubes que automaticamente “fecham” com a orientação recebida e votarão em massa seguindo o comando partidário, que pode estar concentrado num “responsável”.

Dependendo da extensão dessa “mobilização”, uma maioria circunstancial pode se apossar do movimento cineclubista. Ilusoriamente: ele morrerá. Ou nascerá livre em outro lugar.

Nada disso, portanto, é novo. E seria ridículo, se não fosse perigoso: essa retórica demagógica, essas obviedades derramadas em tom professoral, essa forma obtusa e manipuladora de “fazer política”, esse método secreto de urdir fatos consumados, essa prática velha e golpista a apresentar-se como nova e progressista. Justamente tentando manipular cineclubes “que, no mais das vezes, nem sequer intuem a natureza e profundidade do que estão a realizar” – como diz o manifesto. Pretendendo alfabetizar os olhares e as mentes desse pobre povo brasileiro, “que não entende essa linguagem” (“Cineclube: estudar não é crime” – Jeosafá F. Gonçalves), coitadinho.

Isso não tem nada de novo, é política. Da pequena, velha, velhaca.
Voto e salário

Manifesto para “aparelhar” projeções e…

Continuando o mesmo raciocínio aparentemente articulado, mas na verdade sem nenhuma ligação lógica – o que se costuma chamar sofisma, logro, desde o tempo da Antigüidade clássica – o “manifesto” conclui que o que faltou ao movimento, o que lhe traria a democracia tão almejada, é gente.

“Gente, gente, gente”, diz o texto; até Marx, coitado, foi reduzido a cretino e chamado a, numa frase desprovida de contexto, afirmar o óbvio ululante: “o homem é o capital mais importante do homem”. Sei. E cineclubismo é olhar para a tela, é fome de gol, é bola na rede (outros slogans do grupo). Isso é que é tomada de posição! Talvez eles acreditem mesmo que os cineclubes são compostos de imbecis e estão precisando tomar aulas com “cineclubistas” profissionais…

Mas voltando ao “manifesto”:  o movimento cineclubista “amofinou-se” porque era baseado em cineclubes. Agora que tudo mudou, diz o texto, é urgente reunir todas as experiências, coletivas ou individuais; “da produção à crítica, da exibição à educação”.  Em outras palavras, todos os setores do cinema, começando talvez com os professores…

Ora, certamente essa tese não vai ter grande sucesso entre cineastas (exceto, talvez, os que se assinam como tal e já fazem parte do grupo), críticos, exibidores, animadores culturais variados, arte-educadores e tantos outros que se reconhecem melhor em outras tantas categorias.  É óbvio que ao misturar tudo – se isso fosse possível – cada um perde sua identidade. Cineclube, de fato, deixa de ser cineclube. Passa a ser uma ong ou oscip genérica, reunindo desde professores que usam filmes em suas aulas (como empresas usam, para treinar ou “estimular” funcionários), blogs pessoais, produtoras comerciais, literalmente qualquer coisa. Se os estatutos do CCSP seguirem aquele que “vazou” na lista, até empresas estrangeiras. Por que não Hollywood? Vale tudo nesse “novo cineclubismo”, desde permita que qualquer um se habilite como “cineclubista” apto a votar. Só não vale o controle da comunidade. De fato, mais uma vez, se os estatutos forem aqueles – que podem ser conferidos na lista da pré-jornada, agora renomeada “cineclubismo” – o controle da entidade, sutilmente, pertence apenas ao grupo de fundadores.

Não, essa idéia tão “abrangente” quanto irrealista serve a outros propósitos: ela quer abrir espaço para que “cineclubistas” profissionais possam ter mais mobilidade entre cineclubes, sejam capazes de controlá-los e às entidades representativas dos cineclubes e, last but not least, ainda ajuda a tentar arrumar um empreguinho numa prefeitura “amiga”, quem sabe com indicação do partido…

O que o Movimento Popular Cineclubista propõe, e o Centro Cineclubista de São Paulo (ou do Brasil?) já pratica, é mais ou menos o mesmo que aconteceria, por exemplo, numa federação de sindicatos em que o “sindicalista”, quer dizer, o militante, o quadro “mais avançadinho”, passaria a ter um voto, tal como um sindicato inteiro. Alhos e bugalhos. Pessoas “especiais” cujo voto tem o mesmo peso de uma entidade que representa um sem-número de pessoas.

A base de um cineclube é o público – não o “militante”. A base do cineclube é a sua comunidade, o meio, o ambiente no qual ele se instala e com o qual guarda um vínculo de representatividade. No cineclube o público deve ser o sujeito. É isso que o diferencia do cinema comercial, para o qual o espectador é um objeto, gerador de lucro, ou mesmo de outras atividades “educacionais” ou com outros fins, onde o público é também objeto de uma ação externa, independente do conteúdo ou da intenção.

Um cineclube reúne moradores de uma cidade, de um bairro, gente de uma profissão ou atividade, um grupo que partilha uma visão ou uma curiosidade com o cinema; uma escola, uma fábrica, um cinema emprestado, uma igreja, uma sala, um galpão. Uma “comunidade” qualquer com interesses e objetivos… comuns: isso é comunidade (não confundir com território, com bairro). A base da relação democrática num cineclube é o público dessa comunidade, isto é, ela mesma.

A unidade desse público é o espectador, o freqüentador do cineclube. Idealmente a própria atividade do cineclube faz que muitos desses “freqüentadores” passem a associados – o que implica justamente numa adesão genérica e básica do espectador ao cineclube. Uma tomada de posição consciente que o leva a participar de alguma forma do cineclube. E alguns desses, por mil razões subjetivas, tornam-se verdadeiros militantes, tal como acontece em outras instituições democráticas, desde o sindicalismo até o Congresso Nacional, passando pelos mais diversos movimentos sociais.

Mas o militante o faz por adesão pessoal que, em si, não lhe traz maiores benefícios. É obvio que são estes, mais envolvidos, mais mobilizados, mais informados, que se tornarão o “material” de onde sairão os cineclubistas mais ativos, assim como a maioria dos dirigentes dos cineclubes e de outras instâncias do movimento cineclubista. Eles se destacam pela dedicação, pela qualidade do seu trabalho e pelo reconhecimento dos seus pares, que lhes delegam representatividade. Mas mantêm um vínculo de dependência permanente com seus eleitores, os associados: em alguns cineclubes ou outras entidades eles podem ser apeados de suas posições a qualquer tempo; no mínimo têm que se submeter ao julgamento eleitoral periodicamente.

O que esse “manifesto” propõe como “novidade” é jogar o público para escanteio (cineclubismo para eles é bola fora), chutar o voto para fora do campo, criando um álibi jurídico que permite a certos “cineclubistas profissionais” responder por vários cineclubes simultaneamente. Na “lista” já se vê essas pessoas assinando mensagens em nome de cineclubes completamente diferentes: de aposentados, universitários, colegiais; de jornalistas e do CCSP… Essa nova “teoria” é perfeita para o “aparelhamento” de simples projeçõezinhas, de atividades comunitárias com cinema, cursos dados por professores com uso de filmes – tudo agora chamado de cineclube – por grupos, tendências, partidos. O cineclube não aparece, o público não se manifesta: fala o cineclubista, e em nome de diversos cineclubes! E nem precisa ser eleito, também. Ele já desembarca com esse rótulo de “líder natural”, conferido alhures, por um “movimento popular” ou uma entidade de “ilibada reputação”, como o CCSP.
e descolar um empreguinho.

Fechando o círculo dessa lógica infernal – e infernizante – temos a idéia da “profissionalização” do cineclubista. Aparentemente pouco clara – o assunto foi recolhido às pressas da lista de discussão – a idéia foi apenas  esboçada por membros do CCSP, um viveiro de “cineclubistas”.

A antiga legislação, ainda em vigor, determinava que um cineclube não podia atribuir “vantagens pecuniárias” a “dirigentes, mantenedores e associados”. Ou seja, um cineclube – como foi o caso de alguns “maiores”, com atividade diária – podia remunerar com salários um trabalho prestado. Salário não é “vantagem pecuniária”, é o pagamento justo por um trabalho efetuado. Vantagens são lucros, dividendos, bonificações, etc.  Consagrando o princípio de que a direção do cineclube emana tanto dos associado como dos dirigentes, e que haveria conflito de interesses com “mantenedores”, isto é patrocinadores de qualquer natureza, a legislação, ao mesmo tempo que assegurava o caráter de entidade sem fins de lucro aos cineclubes, preservando sua lisura e independência, também permitia que aplicasse seus recursos no custeio de suas atividades, inclusive remunerando o trabalho das pessoas. A legislação atual de “organizações sociais de interesse público” consagrou esses princípios e, inclusive, reforçou os controles administrativos sobre a aplicação dos recursos.

Ora, se por um lado um membro do cineclube pode ser remunerado quando o cineclube assim puder e decidir e, por outro lado, se já existe a categoria de “animador cultural”, reconhecendo o direito mais geral de empregados em entidades culturais, com ou sem fins lucrativos (em São Paulo, por exemplo, têm seu próprio sindicato, o SENALBA), por que essa idéia de “cineclubista regulamentado”?

Eu diria que, estapafurdiamente, isso só serve para tentar legitimar o aspecto que analisei anteriormente da proposta de “cineclubista” militante, pretendendo dar-lhe uma maquiagem jurídica – de resto totalmente despropositada. No fundo, o que os formuladores dessa idéia pretendem é justamente tentar remunerar o indivíduo “especialista em tocar atividades de caráter cineclubista”, ou como diz o “manifesto”: “da produção à crítica, da exibição à educação”. Salário para quem, sejamos claros, quer na verdade substituir o cineclube.

Tantos bons militantes sem emprego fixo, coitados… E olhem, há gente capaz de instrumentalizar setores do poder público – em pequena escala, mas suficiente para as ambições de certos “cineclubistas” – no sentido de premiar, empregar e remunerar “bons militantes”.

Por um cineclubismo renovado, arejado, atuante e democrático, continuador de uma longa e bela tradição cultural brasileira e irmanado aos movimentos cineclubistas de todo o mundo que, sem exceção, adotam os mesmos princípios e formas de organização.
                                                                       Montreal, julho de 2004

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