Opinião: Movimento cineclubista sem aspas, por Felipe Macedo

Texto Felipe Macedo publicado na lista CNCDiálogos

Caros Gleciara, Davy…

Já passou quase um mês desde as mensagens da Gleciara (mensagem 23002) e do Davy (23085) comentando minha contribuição ao debate iniciado com a nota oficial do CNC que, por sua vez, coincidiu com outros textos diversos sobre as práticas do grupo denominado Fora do Eixo e suas possíveis “ramificações” nos meios culturais e no Estado. A riqueza, elegância e gentileza dos comentários d@s companheir@s não podiam ser deixadas sem resposta, que apenas tardou porque estive envolvido em várias atividades que me afastaram do computador e da internet por vários dias. Por respeito aos dois e à qualidade de suas intervenções, que penso serem de grande proveito para todos os cineclubistas interessados nestes temas, passo agora a uma espécie de tréplica que mantém uma certa atualidade já que as questões colocadas remetem a aspectos que não foram abordados antes e que agora tenho a oportunidade de esclarecer. Ou dificultar, como propõe o Davy.

Até tu, íter?

Um bom número de missivistas, nesta lista, pede desculpas pela extensão de seus textos quando estes ultrapassam algumas dezenas de linhas. Não sei se isso faz parte do protocolo da internet ou se, parafraseando o Davy, seria uma espécie de neo-atavismo em que nos acostumamos a restringir nossas reflexões a uma suposta baixa capacidade de interesse, concentração ou mesmo expressão por parte do leitor, isto é, do cineclubista, aqui público. Admirador da síntese, que não me é estranha, acredito contudo que o debate requer com freqüência argumentos e esclarecimentos detalhados para uma compreensão mais ampla e geral. Comentários diversos têm até me surpreendido um pouco, mostrando que o que escrevo é lido por um número significativo de pessoas idem, e não apenas dentro do movimento cineclubista. Além disto, este texto tem sua dose de suspense e intriga que, claro, guardei para o final, respondendo às dificuldades que o Davy elenca na relação do “movimento” cineclubista com o Cine “Mais Cultura”.

Resumo da ópera

Minha mensagem, que tinha como título Sobre “A Esquerda Fora do Eixo” e o cineclubismo propriamente dito, pode ser resumida na idéia de que o Conselho Nacional de Cineclubes é um espaço de representação do movimento cineclubista brasileiro e que o grupo Fora do Eixo é uma organização de caráter partidário – no sentido lato de ter uma postura ideológica definida e um programa para realizá-la, procurando ocupar esses espaços representativos (não apenas no movimento cineclubista), disputando o poder sobre esses espaços. Eu disse que isso é natural, está na origem e sempre existiu no movimento cineclubista, como em outros movimentos sociais e culturais, e que o problema maior, ético e político, está na dissimulação das práticas políticas de ocupação do poder, mais que nelas mesmas – de resto de certa forma “tradicionais” – como a nota do CNC e outros textos procuraram demonstrar.

O público como autor: leituras diferenciadas

Uma das bases teóricas para o reconhecimento da importância central do público consiste na compreensão de que é ele que produz o sentido das obras culturais; que o público é o autor, numa espiral dialética em que os autores, imersos e parte, em muitos sentidos, no e do próprio público, participam do diálogo em que o coletivo social e histórico é o determinante.

Derivação meio engraçada dessa afirmação mais geral é que, nos casos isolados, cada um dá o sentido que quer aos textos que lê (ou assiste). Por isso, acredito que a Gleciara, mesmo tendo compreendido o sentido do meu texto, que resumi acima, mais pegou a oportunidade para desenvolver sua defesa da necessidade de preservação e promoção da diversidade e do pluralismo do que propriamente contestou minha afirmação de que, justamente, a garantia da expressão do que ela chama de estruturas diferenciadas de pensamento está na sua manifestação clara, aberta, democraticamente cotejada com outras de igual direito, sem dissimulações ou artifícios. E é o que ela faz em seguida, mostrando a falência de arquétipos deterministas – e no limite, racistas – e o valor do saber e da experiência inestimáveis das comunidades, etnias, grupos sociais alijados pelas convenções, tabus, “virtudes” estabelecidas pelo que talvez concordássemos em identificar como ideologia dominante.

O Davy é mais preciso no questionamento, uma dificultação modesta e desinteressada segundo ele, de pontos que identifica – e desenvolve – do meu texto. Como ele, acho que esses pontos representam dúvidas importantes, podem ter interesse para mais cineclubistas e permitem o desenvolvimento desse debate que unanimemente tanto valorizamos. Vou tentar responder a essas “dificuldades” na ordem em que aparecem no texto do companheiro – que deve ser lido para a compreensão deste (e por suas qualidades intrínsecas). Qualquer ironia ou brincadeira não deve obscurecer o respeito que tenho pela seriedade dos questionamentos feitos, pelas dificuldades apresentadas.

Aspas

E já começo por introduzir um dificuldade minha: por que as aspas em “movimento” cineclubista? Aspas suspendem o sentido original da palavra, colocando-o em questão. O Davy expressa uma dúvida ou ironia sobre o sentido do movimento cineclubista? E logo como título do seu texto… Acredito que essa questão dá um bom debate. Para mim, o cineclubismo é claramente um movimento social de organização do público, resultante da resistência à implantação de um modelo de audiovisual que foi apropriado por uma classe social hegemônica como instrumento de sua dominação. É um movimento social amplo, que surge com a consolidação do público moderno, de massas; é um movimento generalizado, universal, que se organiza em todos os países em que o cinema assume alguma importância e forma públicos, e é um movimento plural, diversificado, contraditório como o próprio público de que se origina. Mas que se define e distingue pelas conhecidas características de associativismo, democracia e finalidade não lucrativa. Nenhum outro movimento cultural ou artístico desenvolveu estas características.

Primeira dificuldade: o ovo, a galinha… e a raposa

Disso decorre em grande parte a “solução” da primeira dificuldade apontada pelo Davy. Ao contrário do que ele entendeu do meu texto, o CNC não “nasce para aglutinar e representar os cineclubes… …tal como o Fora do Eixo”. O CNC não promoveu a aglutinação dos cineclubes, mas nasceu dela, depois de anos e alguns congressos (foi fundado na 3ª. Jornada), de resto como aconteceu no resto do mundo. O Fora do Eixo, diferentemente, é uma iniciativa particular e um projeto de poder que não nasceu de um movimento específico, mas procura reunir e “representar” diferentes formas de expressão artística (laranjas, maçãs, bananas) em torno de uma proposta definida, mais como uma organização partidária que representativa. Não é alicerçado em um movimento (social), mas numa proposta (ideológica) que se diferencia, que exclui (senão nas “bases”, certamente nos círculos internos, superiores) tudo aquilo que não se adéqua a essa proposta. Isso fica muito claro na mensagem que a nota do CNC denuncia, onde as pessoas são triadas sob critérios “psico-ideológicos”. E acrescento que considero que aqueles que procuram desculpar e desculpabilizar pela pouca idade o rapaz que escreveu aquela mensagem o fazem por preconceito ou má fé. O texto dele, longe de ser “infantil”, é bastante perspicaz, apresentando um agudo senso de observação e refletindo uma larga experiência, que nada tem a ver com a idade.

Segunda dificuldade: seita asceta

Outra dificuldade é o entendimento das palavras sectarismo e ascetismo. O fato de eu usar a segunda deveria ajudar a compreender o sentido da primeira. Acredito que expresso não apenas o sentido estrito do termo, segundo o dicionário, mas o mais cabal senso comum, quando identifico características sectárias e ascéticas em pessoas que dividem seus bens ou ganhos e vivem em comunhão, dedicando-se integralmente a uma missão, seja ela qual for. Podia acrescentar a palavra missionário, num sentido específico. É verdade que, como bem lembrou a Gleciara, parte disso também pode acontecer em alguma medida em certas sociedades que a antropologia tradicional chamava de primitivas, mas certamente elas não usavam nenhum tipo de cartão de crédito, por isso não as tive em mente e nem foi essa a dificuldade encontrada pelo Davy. Também não acho que a seleção e programação de filmes através de um processo coletivo constitua “sectarismo” no sentido que o Davy havia visto em meus comentários. Ora, nem mesmo esse papo de curadoria de programação, que considero uma perversão pequeno-burguesa presente apenas no cineclubismo brasileiro, poderia ser chamado de sectarismo, já que está mais para o individualismo decorrente de uma concepção empreendedora, ou capitalista que, aliás, é esposada pelo Fora do Eixo. E nem mesmo, sequer, esta minha franqueza e ironia ou rispidez, constituem sectarismo, pois não pretende retirar o direito de cidadania de nenhuma dessas concepções no movimento cineclubista, mas sim combatê-las clara, honesta e incansavelmente, sem dissimulação, no terreno das idéias, como queria o velho Voltaire…

Terceira dificuldade: o princípio de Heisenberg

Sobre a terceira dificuldade, isto é, de localizar o Fora do Eixo à esquerda ou à direita do espectro político, creio que a primeira parte da minha mensagem localizava breve, mas suficientemente, a questão. De um ponto de vista anti-capitalista, como deixei bem claro: situar posições depende da posição do observador… Mas não importa ser de esquerda ou de direita para participar do movimento cineclubista organizado e institucionalizado – isso está, inclusive, nos estatutos do CNC. O que o CNC cobrou e eu também procurei salientar foi a questão da forma democrática, transparente, de se fazer política dentro do nosso movimento e das nossas instituições.

Posto isso, há uma convergência entre os artigos que criticam o Fora do Eixo, e mesmo entre os que exaltam a sua criatividade e superação das “velhas categorias fordistas”, no sentido de que essa organização trabalha no sentido de uma modernização, humanização, coletivização e outros melhoramentos do que está aí, “enquanto as reformas não chegam” como diz também o Davy. Para mim, marxista visionário e ultramoderno, cineclubista digital que identifica no público a expressão moderna do proletariado dos tempos fordistas, trata-se não de reformar, mas de transformar radicalmente a sociedade, abolir a propriedade privada dos meios de produção e o próprio Estado. Tarefa que os cineclubes, como embrião da superação da divisão do trabalho capitalista no processo cinematográfico, como forma de extinção da divisão entre o artista criador e o espectador consumidor, ambos alienados ao capital, já estão potencialmente construindo. Não enquanto as reformas não vêem, mas como condição para que haja essa transformação.

Quarta dificuldade: a maçonaria

Esta dificuldade leva à seguinte: conhecemos bem o Fora do Eixo para poder criticá-lo “de forma consistente”? Outro dia vi um documentário sobre a maçonaria no canal National Geographic em que alguns maçons reconheciam que o secretismo da sua instituição tinha como contrapartida uma responsabilização da organização, por parte do senso comum, por uma série de intrigas e mistérios, até assassinatos. A dissimulação – o entrismo, a adoção de outras denominações, a ocultação de objetivos, etc – produz os mesmos efeitos: a gente pode ser intolerante, meio paranóico, como pode ser ingênuo, aliciado, envolvido. Como saber? Um pouco de experiência ajuda a identificar o que, sem ser expresso claramente, constitui indício. Este debate, aliás, ajuda a construir esse tipo de experiência. A experiência ajuda a controlar a psicose conspiratória, mas também evita a credulidade e a ingenuidade suicidas. Um ex-presidente da Federação Paulista e criador do Elétrico Cineclube, Serge Roizman, chamava isso, brincando, de exercícios de paranóia científica. Essa técnica nunca causou nenhum prejuízo a ninguém, pelo contrário.

Assim, o que eu vejo do alto, ou debaixo de quase 40 anos de muita política cineclubista e cultural são claros sinais de práticas políticas dissimuladas, que ligam claramente – e mesmo financeiramente – o Fora do Eixo, o PCult e o Cine+Cultura, entre outras iniciativas. As dificuldades finais apresentadas pelo Davy me permitirão voltar a isso mais adiante.

Mais dificuldades: commonismo e innovation

Antes disso, umas dificuldades menores do Davy: o conceito de commons não deve ser considerado à esquerda do processo político atual? É, se a gente considerar que os liberais estão à esquerda dos conservadores, a analogia se aplica perfeitamente – e, na prática, isso não é nada desprezível. Por outro lado, iniciativas como o Creative Commons, por exemplo, apenas propõem uma reforma e controle de parte dos abusos da apropriação dos direitos do público (e mesmo dos autores), sem contestar em essência o regime de propriedade privada dos direitos patrimoniais sobre os bens culturais. Já numa leitura marxista (Slavoj Zizek, por exemplo), a questão dos commons remete aos interesses e direitos difusos, como os do público. Sem querer crucificar demais o pessoal excêntrico (de ex centris, fora do eixo), não creio que esta seja a sua postura. Mas quem disse que o movimento cineclubista brasileiro é ou está à esquerda?

O que não tem nada a ver com “desprezar novas experiências”. O movimento cineclubista é uma sucessão histórica e mundial ininterrupta de novas experiências; é mesmo uma de suas características essenciais. É pretensão, desinformação ou má fé procurar identificar essas experiências do Fora do Eixo como a quintessência da inovação. São possivelmente interessantes, mas certamente nada extraordinárias se comparadas a tantas outras que os cineclubes estão continuamente produzindo. E a ação de identificar toda crítica com uma reação “antiquada” (eufemismo para marxista ou radical) não pega, é um sofisma que só enxerga inovação no uso do aparato mercadológico e na reciclagem de ferramentas gerenciais. A mentira tem “cauda longa”, como diz o ditado… Aí eu penso como a Gleciara: talvez a verdadeira inovação, a real superação de categorias emboloradas, esteja na capacidade de ver de forma diferente, ver com todos os sentidos, do povo, do público, em vez dos patrões, dos métodos dos patrões.

Criando dificuldades onde não existem

Tanto o Davy como a Gleciara (e Ivana Bentes e muitos outros), em diferentes medidas, vêem na crítica uma tentativa autoritária de coibir a diferença, a diversidade, a modernidade ou a tradição – o que não parece acontecer no caso reverso, isto é, quando essa crítica é desqualificada (por outra crítica, eu diria) como antiquada, intolerante, arbitrária, elitista ou, numa palavra, subrepticiamente sugerida… comunista. Mas isso não está no texto; aliás, em lugar nenhum. O Davy deriva do texto outra dificuldade adicional: será que a crítica visa erigir um muro isolando o movimento cineclubista de ações externas, isto é, “entrismo, aparelhamento, instrumentalização… quando isso já ocorre em nossas fileiras”? O raciocínio é circular, repetitivo, sofismático. “Entrismo, aparelhamento, instrumentalização” não são meras ações externas (ou internas ou de qualquer direção), mas sim ações deletérias, destrutivas, antiéticas. Identificá-las e combatê-las é indispensável para defender o movimento de sua descaracterização. Isso não é abstrato: a Igreja já aparelhou o movimento, o fascismo italiano tentou instrumentalizá-lo, diferentes tendências de esquerda ocuparam federações apenas para abandoná-las quando deixavam de ser úteis, matando-as, como também aconteceu nos outros casos citados. Hoje é o Cine+Cultura que constrói um movimento paralelo, atrelado ao Estado e sem conteúdo – mais isso fica mais para o finzinho…

E a crítica que procura identificar diferenças certamente não isola, mas estabelece bases transparentes para a colaboração possível ou desejável e, sobretudo, claramente identificada pela maioria. Pessoalmente penso que o movimento, isto é, sua direção, por não fazer essa avaliação sistematicamente – e, de fato, por tê-la dissimulado do movimento por um bom tempo – contribuiu para um isolamento muito grande em relação aos movimentos sociais e populares, a uma dependência acrítica em relação ao Estado e a uma subalternização em relação ao setor da produção no campo do audiovisual. Mas isso é uma dificuldade que ninguém levantou e não vou aprofundar aqui.

A maior dificuldade: Cine+Cultura

Os comentários seguintes do Davy concentram em poucas linhas o que me parece o mais importante nesta discussão e que chamei de Ameaça ao Cineclubismo em minha mensagem original: o papel destrutivo do Cine+Cultura com relação ao cineclubismo brasileiro. A dificuldade de responder ao Davy está no fato de que suas poucas linhas – que reproduzo a seguir, para facilitar – reúnem diversos mitos que, à força de serem repetidos e mesmo encenados à exaustão, foram aceitos como verdades, ao que parece, por grande parte do nosso movimento. O que segue é uma oportunidade para provocar uma reflexão, dificultar a repetição e propagação acrítica desses mitos:

Não seria leviano ou, no mínimo, desrespeitoso, ao se referir ao PCult, colocar a palavra independência entre aspas e atribuir a sua sustentabilidade a “elemento da seita”(?!), uma vez que o movimento agrega agentes culturais de todas as linguagens de expressão artísticas, de vários cantos do Brasil, que estão imbuídos de suas responsabilidades como trabalhadores da Cultura?

Não será um equívoco dar uma dimensão desproporcional aos eventuais equívocos do Cine+, uma ideia que nasceu no seio do CNC – com a intenção de fortalecer o cineclubismo – e foi patrocinada por um cineclubista histórico (com o poder da caneta da SAV às mãos), frente as potenciais possibilidades que ele oferece ao “movimento”?

Se considerarmos os últimos números apresentados pelo Rodrigo, que dão conta de que 131 Cines+ eram filiados do CNC, será que não é o caso de comemorarmos e nos comprometermos com a correção dos eventuais desvios?

Se é fato que “o movimento cineclubista não deve discriminar tendências ideológicas, de cuja discussão retira parte substancial da sua diversidade e representatividade” e se os gestores do Cine+ são militantes do cineclubismo de longa data, por que as possíveis divergências haverão de ser intransponíveis?”

Paranóia científica

Para responder a essas questões, retomo à “quarta dificuldade” descrita acima. Como tratamos de ações dissimuladas, temos que trabalhar com os indícios, e com fatos históricos (mas recentes) que são relativamente fartos e claros para um observador atento. Com relação ao PCult, singela proposta independente e apartidária de agregação de forças da sociedade civil para contribuir desinteressadamente na construção de políticas públicas para a cultura, noto alguns fatores: é dirigido, estimulado ou simplesmente portavozeado  informalmente por um funcionário do Estado, dirigente, por uma feliz coincidência, do Cine+Cultura. Pouco antes das eleições presidenciais, num dos momentos de aparente indefinição, esse prócer da neutralidade propunha a adesão do PCult à candidatura Dilma; claro, sem qualquer interesse pessoal… Um dos, ou o articulador do PCult em Brasília, originário do interior de São Paulo, com estágio no Rio de Janeiro, assina suas mensagens com a extensão @foradoeixo.com  – o que poderia sugerir a um paranóico desavisado um vínculo de sustentabilidade com a organização mais geral, já que o referido elemento demonstra grande mobilidade geográfica, portanto financeira. Este mesmo articulador, pau-pra-toda-obra, nos seus tempos de cineclubismo, atuou como interventor de urgência no processo do meu afastamento (a que voltarei brevemente mais adiante, pois é parte desta mesma psicose) da coordenação das oficinas do Cine+Cultura.

As afirmações acima podem ser comprovadas nas mensagens da lista cncdialogo, o maior canal de comunicação do referido PCult que, ao contrário do que afirma o Davy, não tem qualquer base mais sólida fora do Rio de Janeiro – embora, claro, flutue nas nuvens de adesões simbólicas e desinformadas e de alguns interessados legítimos, frequentemente cineclubistas, não “de outras expressões artísticas e cantos do País”. Mas, pessoalmente, acho que no Rio ele ainda vai tentar eleger alguém…

Equívocos

Ao falar do Cine+Cultura, principalmente, o Davy repete a ilusão criada durante as gestões anteriores do CNC e do MINC, quando o primeiro procurou estabelecer uma verdadeira relação “familiar” entre nossa entidade e o governo, gerando esse mito descomunal de apoio ao movimento por parte do ministério. Este assunto seria extenso o suficiente para comentários ainda mais longos do que os que faço aqui mas, em síntese, o que realmente tivemos nas referidas gestões (2004/2010) foi um crescimento em número e legitimidade do nosso movimento, bem antes do Cine+Cultura, criando uma pressão legítima e um reconhecimento constrangido por parte do ministério e da ANCINE, ou seja, do governo.

Comparativamente, obtivemos mais, arrancamos mais, pela nossa luta, dos governos da ditadura, do que nesse período. Os recursos destinados ao cineclubismo, comparados a qualquer outro segmento do audiovisual, por parte do ministério e do governo em geral, foram absolutamente ridículos, frações ínfimas (inferiores à unidade percentual) do usado para promover qualquer setor da produção, notoriamente não exibida, festivais, pesquisa, ensino, etc. A maior prova disso é que o movimento não conseguia realizar suas Jornadas, sendo obrigado a mudar os estatutos para torná-las bianuais (foram anuais durante a maior parte da ditadura e anos depois), reduzindo a Pré-Jornada a um encontro acanhado e burocrático (com exceção das que foram produzidas localmente, em Rio Claro, em 2004, e em Vitória, em 2007) de poucos representantes. O próprio Cine+Cultura demonstra a escala de valor do movimento para o governo, atribuindo um equipamento barato, mambembe, incompleto, que não se equipara nem a um “baixo orçamento” de curta metragem digital, e constitui cerca de uma vigésima parte dos recursos muito mais razoáveis alocados para Pontos de Cultura. Pontos que, vale lembrar, se originam de uma “área” do ministério que não era associada a essa “familiaridade” estabelecida fantasiosamente sobretudo com o gabinete e, depois, com a SAV de Sílvio Da-Rin. Mitos. Muitos cineclubistas se regozijam com migalhas.

Não sei se o “cineclubista histórico” a que o Davy se refere é o Da-Rin, mas ele entrou na SAV anos depois da instituição do programa que viria a chamar-se Cine+Cultura ( e mesmo antes do impulso que o programa recebeu em 2008); recusou-se a discutir exibição em outras bases (tipo PopCine, por exemplo, ou os projetos mirabolantes da Ancine) e, “com sua caneta”, referendou a censura e proibição do Manual Cineclubista que seria distribuído aos participantes das oficinas do Cine+Cultura. Por tudo isso, foi agraciado com o prêmio “Paulo Emílio” em comovente cerimônia, na última Jornada, em que a homenagem destinada a “pessoas cuja vida represente uma contribuição significativa ao cineclubismo brasileiro” foi distribuída a granel, corrompendo totalmente seu significado.

Com quistos: Cine+Censura

Ao contrário de constituir uma conquista do movimento cineclubista, o Cine+Cultura representa justamente a apropriação e neutralização das grandes propostas do movimento. Não pretende “fortalecer o cineclubismo”, como diz o Davy, mas neutralizá-lo. Não produziu “pequenos equívocos”: expressa exatamente a intenção de criar uma alternativa ao cineclubismo, calcada no modelo empresarial e voltada, em última instância, para a criação de mercado para o cinema brasileiro e para os produtores de curta-metragem em particular. Nas palavras literais de Rodrigo Bouillet, no texto em que censura o Manual, o que se busca é o “cineclube com dono” – ainda que isso fraude a legislação brasileira. Tudo isso ficou muito claro – para quem se dê ao trabalho de verificar, de saber – na disputa pela orientação da formação dos cines quando, apesar de toda a legislação, editais e mesmo o contrato com o CNC falarem na formação de cineclubes, os coordenadores do programa exigiram “outro caráter” para o Cine+Cultura e obtiveram do CNC a abolição do conteúdo cineclubista das oficinas e a aceitação da censura integral do Manual Cineclubista. Para verificação dos curiosos mais empedernidos, estou colocando nos arquivos desta lista o documento Cine+Censura em que eu respondia aos “cortes” no Manual e à orientação do Cine+Cultura considerando que o programa não visava criar cineclubes, mas “cines” com “atividades cineclubistas” (!). Com pequenas modificações – principalmente substituindo termos mais fortes (o título, por exemplo, virou Cine+Sensato) -, o documento foi aprovado pelo CNC e enviado aos responsáveis do Cine+Cultura, mas sem divulgar para o movimento. Dias depois eu era afastado da coordenação das oficinas.

Em nenhum país do mundo – e alguns têm políticas que reconhecem e subsidiam amplamente os cineclubes – existe uma estrutura estatal de coordenação de uma atividade que só pode ser chamada de cineclubista (mesmo procurando ocultar seu conteúdo), com listas de relacionamente e discussão, controle de sessões e programação ligados diretamente ao governo. É como se o Estado dirigisse uma federação nacional de clubes de futebol, ou de sindicatos…

A Programadora Brasil, inicialmente dirigida pelo atual representante visível do PCult, tem já no nome a pista para seu conteúdo e intenção, como não canso de dizer. Outro projeto essencialmente cineclubista na origem, não tem nenhuma forma de participação dos cineclubes em suas atividades; a maior parte de seus recursos é destinada à compra de direitos de filmes recém feitos, geralmente já produzidos com dinheiro público. Virou mais um subsídio à produção, com a vantagem de promover a exibição. Segundo dados da própria instituição em um de seus informativos, que cito de memória e aproximativamente, ela tem cerca de 1,5 mil clientes, com um público médio de 4 a 5 pessoas por sessão, totalizando 300 mil espectadores em cerca de 3 anos – pouco mais de 10% do público anual dos festivais brasileiros de cinema. Mas todos os cineclubes filiados ao CNC, em princípio, têm direito a todos os filmes da Programadora gratuitamente. Como vai o acervo do seu cineclube?

Oh, tudo isso tem um lado positivo, claro. Mas o que eram projetos cineclubistas, baseados lá longe na Dinafilme e nos Intercines, tornaram-se programas essencialmente com outras orientações e resultados bem medíocres em escala nacional. E tornou-se “natural” não discutir, questionar, pretender participar, aperfeiçoar: recebemos e louvamos. Alguns cineclubistas regozijam-se com muito pouco.

Atavismos e historicismos

Sempre na linha de “corrigir pequenos desvios”, o Davy pergunta se não devíamos comemorar o fato de que 131 Cines+ são filiados ao CNC. De um total de mais de mil, segundo vagas informações oficiais. Parece um índice paralelo à situação do cinema brasileiro no mercado comercial: temos 10% do projeto que o movimento cineclubista criou para incentivar o cineclubismo no Brasil. Viva! Brindemos a isso! A política (pública), aqui, parece tomada como uma força da natureza, à qual a gente deve se adaptar, ou divina, a que devemos agradecer.

Os “militantes cineclubistas de longa data” a que o Davy se refere e que gerem o Cine+Cultura são, a meu ver, meros e solertes inimigos do cineclubismo associativo, democrático e sem fins lucrativos (qualificativos que são pleonasmos, pois se confundem com a definição histórica e legal de cineclube), com uma bela folha de serviços a demonstrar. Conheci o portavoz do PCult em 2003, na Jornada de Brasília; representante de uma certa Cooperativa Fora do Eixo, ele via aquilo com muita desconfiança porque, nas suas palavras, “parecia muito uma iniciativa do Estado”. De fato, no ano seguinte, quando o CNC foi reorganizado, ele foi o último o concordar com a criação da entidade, na qual, no entanto, entrou como dirigente (que nada realizou em um mandato e pouco). Na Jornada seguinte, em Santa Maria (2006), ia se lançar à presidência, desistindo na última hora diante da candidatura, considerada imbatível, de Antonio Claudino de Jesus. Mas conseguiu que a realização da Jornada seguinte se desse no Rio, seu terreno. Mas essa Jornada não aconteceu, apesar de dois anos de prazo para prepará-la em um dos estados mais ricos do País. Ao invés disso, na data prevista para a Jornada, com amplos recursos (passagens, estadias, publicações, além de pagar a Mostra do Filme Livre, associada ao projeto, tal como a Programadora Brasil – estranha simbiose em que o Estado se financiava via entidades privadas) obtidos em nome do “cineclube com dono” do outro gestor do Cine+Cultura a que o Davy se refere, então também presidente da ASCINE, realizou-se um encontro nacional paralelo, de um “Circuito” de cujo nome já não me lembro exatamente, que se desdobraria depois em várias ações inócuas em outros estados, até morrer de inanição e inconseqüência. Foi, evidentemente, uma primeira e canhestra tentativa de criar uma estrutura paralela. Morreu pela inconseqüência e pelo abandono, pois concomitantemente os dois entraram para o governo, primeiro na Programadora, depois no Cine+Cultura, e a nova ferramenta e estrutura paralela passou a ser constituída por esses programas, especialmente o último. Como eu disse antes, apesar da definição do programa, dos editais e da legislação – seja o Código Civil, quando trata de associações sem fins lucrativos, ou seja a Instrução da Ancine sobre cineclubes – consagrarem uma política pública de fomento e apoio ao cineclubismo, esses “militantes cineclubistas” conseguiram – aproveitando-se da especificidade e pouca importância do cineclubismo no quadro geral do ministério – conferir ao programa uma outra orientação, já descrita sucintamente acima e que, afinal, está aí, todos conhecem. Hoje estão empenhados na promoção, dentro desse circuito paralelo, de um cineclubismo “mais horizontal”, com uma organização mais difusa, gerencial, mais apoiada na iniciativa individual, no empreendedorismo. Sem as “peias” que definem o cineclubismo em todo o mundo. “Inovações” que negam e “atualizam” a organização do público audiovisual, na direção de tornar os “cineclubes” um eficiente modelo de negócio para a exibição em meios populares, e o público excluído do cinema em um novo mercado: o “mercado não comercial” (!!). Os “velhos militantes” pensam contar com mais de mil “cines” para criar esse outro movimento. Quem viver, verá…  E o Estado, que hospeda essa visão, ignora praticamente o que acontece, pela própria pouca importância que confere e parco entendimento que tem do cineclubismo.

Como oclusão

Em si, essa coisa de Fora do Eixo, uma vez a bola levantada e atentos os que já o são, não tem tanta importância. Até porque, dada a dissimulação, as ligações com o Cine+Cultura, que é o que realmente nos afeta, são nebulosas, matéria para a coscuvilhice – que só a paranóia científica enobrece. Mas como caso, seu exame pode ser bem útil para os cineclubistas que eventualmente vivem num mundo idílico, num cineclubismo cordial de conquistas fáceis, parcerias fraternais e desinteressadas e um Estado benevolente e generoso. Pois esses tipos de ações políticas são mais que freqüentes em nosso meio, em diferentes níveis. E o desenlace da disputa surda e secreta que se dá com o Cine+Cultura neste mesmo momento, sempre sem o conhecimento dos cineclubes, será decisivo para o futuro do movimento sem aspas.

Portanto, tal como o Davy, creio que minhas reflexões também buscam colocar o cineclubismo dentro do quadro político e cultural. Dentro da realidade. Mais ainda, busco colocar este quadro cultural e político numa perspectiva histórica. Perspectiva mais que inovadora, revolucionária, do ponto de vista do público. Estas são palavras que, para mim, não envelheceram, não se desgastaram pois, mais que muitos outros setores da sociedade, é justamente o movimento cineclubista, sem aspas, que está constantemente criando novas práticas e dando novos sentidos de compreensão e luta contra uma injustiça básica que segue igual sob roupagens sempre re-inovadas, tornando o público, a quase totalidade da população, um mero objeto da comunicação, um consumidor inerme de uma produção cultural de segunda classe, um moderno proletariado sem a propriedade (mais que o acesso) da informação, do conhecimento, da arte.

abraços,

Felipe Macedo

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