Entrevista: Presidente do CNC fala ao portal Claro Curtas

Luis Alberto Cassol é diretor de cinema e publicidade e também cineclubista. Eleito presidente do Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros (CNC) para o biênio 2011-2012, ele conversou com o Claro Curtas sobre o atual panorama do acesso ao audiovisual no Brasil e também sobre os desafios e as missões do cineclubismo no país.

30/05/2011

Luiz Alberto Cassol e a importância dos cineclubes para o audiovisual do Brasil

Como começou sua relação com o audiovisual e que momentos da sua experiência profissional foram mais marcantes para você?
Comecei como cineclubista em 1993, no Cineclube Lanterninha Aurélio da minha cidade, Santa Maria, interior do Rio Grande do Sul. Eu era estudante de administração de empresas e sempre fui muito ligado em cinema. Em 1995, comecei um curso de extensão em cinema e televisão e na mesma época apresentei ao Sindicato dos Bancários uma proposta para a criação de um cineclube, que batizamos de “Otelo”, em homenagem ao ator Grande Otelo, protagonista do filme Macunaíma. Era um ano emblemático, em que se comemoravam os 100 anos do cinema, e chegamos a exibir mais de 60 títulos, do cinema mudo ao contemporâneo. Desde então, não parei mais com o cineclubismo. Outro ano importante foi 1997, quando fui a Montevidéu fazer um curso com o cineasta Alexander Barinin, que havia trabalhado com o realizador russo Andrei Tarkovski, cuja obra eu admirava muito. Voltei decidido a largar tudo e fazer filmes. Em 2000, dirigi uma campanha política e só em 2002 me tornei um profissional que vive de audiovisual realmente. Em 2003, houve a retomada do movimento cineclubista em Brasília. Foi inesquecível conhecer meus “pares”, pessoas que estavam debatendo cinema, cineclubistas assim como eu.

Quais são seus maiores desafios como presidente do Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros?
O maior deles é consolidar o Conselho como um dos principais movimentos do cinema brasileiro. Isso passa por continuar o grande trabalho de Antonio Claudino de Jesus, meu antecessor. Não há como expressar a dedicação dele como cineclubista, e o desafio será conseguir manter seu legado. Outra tarefa importante é a continuidade da parceria com o projeto Cine Mais Cultura (www.cinemaiscultura.org.br), do Ministério da Cultura, projeto pensado e gestado dentro do CNC e que tem o objetivo de realizar cursos na área de fomento ao cineclubismo brasileiro. Acredito também que seja importante dialogar cada vez mais com as diferentes gerações. Mais do que um desafio, essa é uma grata missão, que fará com que caminhemos cada vez mais rumo à democratização do acesso ao audiovisual.

A maioria da população brasileira não tem acesso às salas de cinema. Quais os principais motivos para isso e como romper a distância entre os espectadores e os filmes?
Só 8% da população do país tem acesso ao circuito tradicional de cinema, através das salas instaladas em shoppings centers, onde 90% do conteúdo exibido são filmes produzidos em Hollywood. O valor do ingresso é o que distancia o público das salas. E boa parte desse valor fica nas mãos do distribuidor, o que prova que a cadeia comercial não foi feita para exibidores ou para produtores e realizadores. É um formato que não se interessa em abrir espaço para a produção brasileira e que lucra com o chamado “valor pipoca”, ou seja, a soma do que se paga desde o estacionamento até a entrada na sala de cinema. No CNC, somos veementemente contra isso e lutamos por novas formas de distribuição e exibição. São os 92% do público brasileiro, que não estão no circuito tradicional, que queremos atingir através dos cineclubes – espaços onde a entrada é franca ou tem valores acessíveis à maioria da população e que auxiliam as pessoas a questionarem suas realidades e ao mesmo tempo ter entretenimento.

Como o acesso mais amplo às diferentes tecnologias e o uso da internet hoje já transformaram e podem transformar ainda mais o audiovisual?
A transformação é radical. É preciso lembrar que se confunde muito a palavra “pirataria”, porque na rede existem muitos projetos que viabilizam as mais diferentes propostas de distribuição do audiovisual. Mas a internet precisa chegar a mais pessoas, já que é uma ferramenta muito democrática capaz de transformar muito mais do que já fez. Além de sites, portais e blogs, ela oferece inúmeras possibilidades de ver, baixar e trocar filmes. E estética e narrativa também entram na discussão. É avassaladora e transformadora a apropriação da informação na web e como tudo isso se traduz em novidade.

De que maneira os cineclubes podem atuar na democratização do hábito de ver filmes e também da produção de vídeos?
Quem frequenta ou organiza cineclubes são pessoas com as mais diferentes formações. Mas também temos um dado incontestável: há muitos realizadores envolvidos na composição das coordenações dos cineclubes de todo o país. Isso significa que, nesses espaços, sempre se está pensando em como fazer as obras chegarem ao público. Falando de maneira pontual, o CNC distribui filmes para um circuito cineclubista de abrangência nacional. Temos a Filmoteca Carlos Vieira, além do Circuito Cineclubista Nacional, a mostra Afro-Olhar e ainda a parceria com o Dia Internacional de Animação, entre outras. Também já tivemos projetos muito importantes criados pelos próprios cineclubistas, como foi o caso do Circuito Cineclubista de Estreias, que já teve sete edições e contou com curadoria, de curtas-metragens, realizada por cineclubistas de vários estados. Esses são apenas alguns exemplos de como o Conselho busca constantemente fomentar novos circuitos.

A seu ver, como é a relação das pessoas atualmente com os cineclubes? Há novos públicos, novas expectativas?
O que mudou é que agora existe um número maior de cineclubes em função da democratização da tecnologia e dos meios de exibição, hoje mais acessíveis e baratos. No Brasil, houve um aumento considerável: há mais de 1.000 Cineclubes em funcionamento. E a estimativa é que o número de Cineclubes aumente e possa chegar a 2 mil até a metade de 2012. Isso se traduz nas mais diferentes propostas de curadoria e no alcance de variados tipos de público, considerando idades e interesses. Nós, do CNC, defendemos sempre a entrada de filmes brasileiros nas programações cineclubistas.

Em sua opinião, o crescimento dos cineclubes é conveniente para os circuitos exibidores tradicionais?
O que vemos é que aumentam os espaços alternativos, mas nada muda no modelo baseado no “valor pipoca”… A verdade é que os circuitos tradicionais estão satisfeitos com os 8% da população que paga esse valor. Além disso, eles não têm para onde crescer. Estão concentrados na classe média e na classe média alta. Os cineclubes, sim, querem atingir os 92% da população que está alijada do processo de assistir filmes. Também vale destacar que a lógica dos cineclubes é diferente: os programas, as exibições muitas vezes acontecem uma vez só e não se repetem. As pessoas assistem a determinado filme e se instigam a buscar outros. Isso, sim, incomoda os circuitos tradicionais, porque o público passa a vislumbrar outras possibilidades, alternativas que vão além do que lhe é imposto pela experiência do filme com o “valor pipoca”. Abre-se outra janela e há apropriação de cidadania, o que cria toda uma nova perspectiva de criação de novas redes de salas e de um circuito cultural. Sem falar que o espectador se torna mais crítico. Dessa forma, o acesso a bens culturais está cada vez mais democratizado. Aí acontece o que eu chamaria de uma revolução cultural.

Quais são suas expectativas em relação à parceria que o CNC e o Claro Curtas estão realizando nesta 3ª edição do Festival?
Mais do que expectativa, minha plena convicção é de que distribuiremos 1.200 kits com vídeos realizados em edições anteriores do Claro Curtas, o que cumpre a nossa missão de democratizar a distribuição dos conteúdos. Depois disso, está nas mãos do público apropriar-se desse material para cada vez mais realizar a fruição a partir de conteúdos audiovisuais.

@beto_cassol
blog pessoal: http://filmesdejunho.com
CNC: http://cineclubes.org.br


Fonte: https://www.clarocurtas.com.br/noticias/noticias/detalhe/entrevista-luiz-alberto-cassol-e-a-importancia-dos-cineclubes-para-o-audiovisual-do-brasil

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