A morte de Antonio Gouveia

por Luis Nassif, qua, 19/01/2011 – 13:48

Mais um que se vai, o grande Antonio Gouvea, ex-jornalista da Gazeta Mercantil, ex-presidente do Centro Acadêmico X! de Agosto,  fundador do Cineclube Bixiga, amigo dos mais leais. Foi em sua gestão, no XI, que os alunos decidiram não mais ir de terno e gravata às aulas.

Foi graças a ele que consegui desfazer um dos grandes crimes do jornalismo dos anos 90: o assassinato de reputação da dona da Clínica Santé, que havia acudido a modelo Cláudia Liz. Sob os holofotes do neurocirurgião Pagura – que uma reportagem de capa irresponsável da revista Veja transformara em “ressuscitador” de doentes terminais – a imprensa caiu matando em cima da clínica, na qual a modelo tinha sofrido um choque anafilático.

Dia após dia, Pagura comandava o massacre.

Uma noite encontro o Gouvea no bar da minha irmã. Sabendo que tinha por hábito investir contra os linchamentos da mídia, me propôs o desafio:

– Por que não entra nesse caso da Cláudia Liz.

Disse-lhe de minha absoluta impotência para tratar de temas médicos. Com seu raciocínio cartesiano, Gouvea resolveu a parada com duas informações:

– Quem entra em coma profundo (condição de Cláudia Liz quando entrou no Einstein, segundo informações de Pagura) não sai da condição dois ou três dias depois, bela e formosa. Leva pelo menos um mês para se recompor. Logo, ela não estava em coma profundo.

Segunda informação:

– Em caso de choque anafilático, os primeiros minutos de atendimento são cruciais para determinar a situação do paciente. Se ela saiu do choque sem nenhuma seqüela, sinal de que foi bem atendida na Clínica.

E me informou de algumas hipóteses para o choque, que corriam na área médica. Terminou me passando o nome de um especialista que poderia confirmar o que me disse.

Tornou tudo simples. Confirmadas as duas premissas, a Clínica estaria absolvida.

No dia seguinte fui para Brasília, liguei para o especialista indicado por Gouvea, que me confirmou as duas premissas. Depois, liguei para a dona da Clínica Santé, para obter mais informações. Reagiu com indignação aos rumores sobre as verdadeiras razões choque anafilático:

– Tenho ética médica e respeito meus clientes!

Fechara-se a terceira perna do caso: havia uma mulher notável no comando da Clínica Santé.

A coluna saiu no dia seguinte, ajudando a impedir a consumação do massacre.

E foi o tranqüilo Gouvea, o melhor parceiro para uma conversa, que mostrou o caminho das pedras, resumindo um caso complexo em duas informações centrais.

Que Deus o tenha!

Fonte: A morte de Antonio Gouvea

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